quinta-feira, 17 de julho de 2014

Memórias de infância

A minha amiga Ana Carolina vestia calças e blusões de tricô, tinha os cabelos compridos como os meus e muitas vezes os lábios borrados de batom cor-de-rosa. Quando batia na sua porta, sempre abria a mãe dela, uma mecha de cabelos brancos presa em um rabo de cavalo e uma cara do qual nunca vi sair um sorriso. O que mais me intrigava era o cuidado que ela tinha com as bonecas da filha,  frequentemente guardadas na caixa original logo após da brincadeira. A minha boneca-bebê vivia cheia da sujeira própria do 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Na sala de espera

Depois de falar incontáveis vezes que eu não estava doente, que a médica iria apenas examinar algumas partes do meu corpo para ver se estava tudo bem, o Fabian insistia no dodói na minha barriga. Até que eu cedi. Ele perguntava, eu tacava-lhe "hum hum" sem pestanejar. Ele virou-se para a estante repleta de folhetos informativos e sacou um dos ginecológicos que mais lhe chamou a atenção. Ficou longo tempo a olhar as figuras, folheava, depois voltava. " Mamãe, já sei poque tua barriga tá doendo". Ah é, porque? Sim, mãe, tua barriga tá cheia de bolinhas...ó! Vira-me o folheto e me mostra o desenho de um canal vaginal cheio de espermatozóides...

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Desabafo - XENOFOBIA



Eu morei em Portugal por seis anos e até então nunca tinha sofrido preconceito. Tenho a noção de que sou privilegiada no Brasil: branca, classe média e magra (na altura). Não tinha qualquer sentimento negativo com relação ao país nem aos portugueses, tinha sim, muita curiosidade de como seria a vida lá, no entanto uma sucessão de fatos foram acontecendo e aos poucos fui criando uma raiva e um nojo tão grande que até hoje luto para me libertar.
De segurança a me perseguir na loja quase até entrar no provador, de clientes em um restaurante que trabalhei a flertarem ostensivamente, querendo meu telefone e olhando para a minha bunda quando me virava, de colegas da faculdade sempre corrigirem o meu "brasileiro" porque para eles nós falamos brasileiro e não português. Todos os dias eu acordava na defensiva, mal notava que me encontrava sempre em estado de alerta, sempre pronta para alguma manifestação de preconceito. Teve uma que para mim foi tão surreal que ainda acho que não aconteceu. Fui ao cartório retirar a certidão de casamento que estaria pronta depois de um mês, cheguei lá e mostrei meus documentos para um senhor negro* que me atendeu. Ele foi até o computador na minha frente e chamou duas senhoras gordas* para verem a tela antes de imprimir. Elas se riram, eles todos se riram na minha frente e me chamaram em alto e bom som de "caçadora" na frente de outras pessoas que também esperavam, pois além de ter uma diferença grande de idade do meu marido (que aliás se não fosse ele, eu não teria emigrado), sou brasileira. E isto justifica tudo. Se no Brasil sofria com machismo, em Portugal era o combo machismo + xenofobia. E não era só dirigida a mim, mas era ligar a televisão e escutar "dois brasileiros assaltaram um banco em Lisboa", "brasileiros envolvidos em golpe", "brasileiras deportadas por ilegalidade e prostituição". Era abrir o jornal e dar com as mesmas notícias. Ah e os comentários, sempre carregados de ódio entoavam um mantra: voltem para a vossa terra monte de lixo! Para os portugueses os brasileiros se dividem em: homem/ladrão, mulher/puta. A situação de xenofobia começou a ter níveis tão altos que criaram uma lei que era proibido dizer a nacionalidade dos infratores.
Por um lado eu entendo o protagonismo que nós brasileiros, juntamente com ciganos, africanos e mais tarde ucranianos tivemos em folhas policiais, pois Portugal era um país tão calmo que as notícias às vezes tinham de falar de uma porca que atolou num vilarejo (esta é verdade mesmo) para encher linguiça. Mas quanto mais davam importância a pessoas que foram para bagunçar, mais aumentava o ódio para com aqueles que acredito ser a maioria, vivem suas vidas honestamente.
Hoje resido na França há quase um ano, porém com o episódio da derrota do Brasil na copa, reacendeu o ranço que os portugueses tem disfarçado em futebol. Meu facebook inundou-se de posts a ridicularizarem o Brasil, os brasileiros e eu por ter passado e sentido esta raiva na pele, não acho tão inocente assim. Teve gente que partilhou um vídeo de uma senhora com deficiência mental para gozarem, a que eu achei de uma profunda falta de respeito.
Não fiquei triste nem horrorizada com a derrota do Brasil que pelo que tinha demonstrado em campo, era inevitável. Fiquei sim, muito chocada por estar revivendo mesmo que virtualmente tudo que passei na pele. E tal como vejo dizerem aqui "não aguentam nem meia horinha de misandia", uns não aguentaram nem três posts meus a criticar, que dirá seis anos de xenofobia.

*Dei esta informação pois se tratando de pessoas que sofrem outras formas de opressão, imaginei que tivessem mais simpatia  e ao menos deixassem para debochar quando eu não estivesse mais ali.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Mãããããeeee olha o "cófaço"

E é assim incontáveis vezes no dia. Mããe. Ô mããe. Manhê! Olha, olha, olha o cófaço*! Vou olhar a coisa espetacular e é um pulo seguido de um despencar sobre o sofá. Ou um gesto a bagunçar o cabelo. Ou uma empinada discreta no patinete. Quando estamos eu e o marido então é uma guerra. Intromete-se quando falamos para olharmos qualquer coisa que ele está fazendo neste momento. Eu já me peguei gritando para o Fernando: olha de uma vez porque aí ele pára!! E de fato isto apazigua o pequeno por instantes até inventar uma nova dança ou coisa do tipo.  
Já vi pais falando mal da adolescência, do quanto o filho não quer saber de ninguém, que chega em casa e se tranca no quarto e só sai de lá para comer. No quanto sentem-se tristes porque os filhos não os  acompanham nos programas de antes e que agora tem tempo só para o casal, tempo demais. Escuto com toda a atenção possível e tento simpatizar com a dor deles, mas tudo o que penso é que esta fase ermitã parece o céu depois da overdose de interação na primeira infância. 
Vá, me dêem um desconto que estou há três dias com o Fabian em casa, faz frio e chove sem parar. 



*o que eu faço

terça-feira, 8 de julho de 2014

Não é só futebol

Não é, não sejamos ingênuos. Esta vergonhosa derrota do Brasil contra a Alemanha reacendeu uma velha disputa. Tenho a minha timeline invadida de posts de portugueses, alguns extremamente ofensivos que chamam as brasileiras de putas e tals. Tenho um "amigo" que colocou trinta postagens ridicularizando o Brasil aí eu me pergunto porque? Porque dar tanta importância? Porque gostar de ver o outro perder? Como eu já disse, não tive uma única pessoa que fizesse o mesmo quando Portugal perdeu, tive sim, foi gente fantasiada de vermelho e verde a torcer por eles. Então porque esta reação? Mágoa, raiva, inveja? Eu to crendo que sim. E é nestas horas que a falsa cordialidade do país irmão cai por terra, porque sim, nestes seis anos que morei lá encontrei muito mais gente que odiava ou simplesmente tinha picuinha pelo Brasil do que o contrário. Desta vez Freud não explica, mas explica a História. Dói ver uma ex-colônia superar o colonizador, não dói? Pena que a copa acaba, mas a crise fique. Ou nem tão pena assim.

O recalque bate nas cinco estrelas da camisa e volta em caspa pro Cristianinho.

sábado, 5 de julho de 2014

Bonitinha indelicada

Aí a amiga decora as unhas de gel como se fosse uma árvore de natal e ainda pergunta "tô linda, não tô"? 



Não, amiga, não tá. Tá faltando as luzinhas.


Fabionices

Ainda a história das pantufas...

- Fabian, bota agora as pantufas "bleu"!
- Não posso, mãe.
- Porque não pode?
- Puque a panpufa tá cansada di caminhá com os meus pé.