Sou péssima a guardar segredos...peço até que não me falem. Tem um ditado que fala que segredo de três, só matando dois, ou dois matando um. Não sei, mas era isto. E porque não consigo guardar segredos dos outros, os meus também andam ali saltando até a beira da voz como crianças irriquietas a dizerem "agora sou eu!". Tenho aqui um segredo...mas não posso contar e isto me angustia. Quem sabe daqui uns meses?
quinta-feira, 24 de julho de 2014
terça-feira, 22 de julho de 2014
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Adoro esta música do António Variações! Ele é legítima versão portuguesa do nosso querido Raul Seixas, e vejo muitas semelhanças para além da barba farfulhenta e do jeito meio nem aí para o mundo. Mas voltando ao que me trouxe aqui, dizia o marido que esta semana passada mais um amigo/conhecido ficou desempregado e perguntava se ele podia ajudar enviando currículo e indicando sites de emprego. Ora, eu sinceramente não sei o que ainda fazem alguns dos nossos amigos em Portugal, sendo que cada dia mais aperta o cerco e o mercado de trabalho principalmente da informática, não é tão grande como isto. Temos um que passou meses e meses desempregado e agora vai pulando de emprego com contrato renovável mensalmente com ganhos de 1500 euros brutos a recibos verdes. Para quem estava acostumado a receber quatro mil, isto é um salário baixíssimo e convenhamos que a crise veio para ficar, nem que seja duas décadas. Se para os portugueses que tem família, filhos pequenos e tal, é admissível um certo apego ao país, para nós que emigramos e deixamos tudo para trás, o que nos impede de fazê-lo novamente? O que nos prende mais?
Uma coisa que tenho aprendido (e ultimamente tenho aprendido tanto...), é que a vida não espera por ninguém. Nem a vida, nem os amigos, nem nada. Se as pessoas ficam estacadas em um lugar reclamando à espera de soluções do governo ou do patrão ou dos números do euromilhões, vai ser uma espera em vão. Mudar não é fácil. Não é mesmo. Mas às vezes o caos completo é a única forma de reajustar nossas necessidades e talvez nossos desejos. As ruas pelas quais passamos, mudam, o restaurante preferido fecha, os amigos se mudam ou simplesmente mudam e com isto levam a nossa amizade. Nada é garantido. E por incrível que pareça podemos ser felizes em qualquer lugar, desde que haja dinheiro. E quem disse que Portugal detém o monopólio de qualidade de vida (como nos disse um amigo como maior motivo para não se ir embora)? Há muitos países com um potencial enorme para recomeçarmos... É claro que eu sei porque não vão embora: o medo é maior do que a vontade de mudar de vida. E nós tivemos uma sorte do caramba, um empurrão do destino, vá lá. Eu nunca pensei que um dia pudesse dizer isto, mas se não fosse aquela tramóia do português, provavelmente estaríamos na mesma vida de antes, contando as cabeças dos colegas que já foram para rua. Vivendo refugiados com um medo de peru em véspera de Natal... Onde está a qualidade de vida nisto?
sábado, 19 de julho de 2014
O verão tem cheiro de cloro
Esta semana fomos pela primeira vez na piscina pública mais próxima de casa, que ainda assim fica a uns 20 minutos (ou mais) de passos de formiga do Fabian. Surpreendeu-me a limpeza apesar de tanta gente estendida nas toalhas e circulando nos arredores. Quatro euros, o que eu quero? Paz, mas a paz é muito cara e o calor e um filho irrequieto fizeram com que conscientemente eu desejasse aquela agitação toda. Não há muçulmanas, conforme me haviam dito, pois no perímetro da piscina só se pode entrar com trajes de banho. Fico a matutar pensando naquele ex-colega, será que esta proibição é anti-democrática? Será que deviam deixar as mulheres entrar de véu e vestido? Ou será que ao invés de culpar o Estado deveríamos responsabilizar a religião por culpabilizar seus corpos pelo assédio masculino?... Cabeças se encontrando, o Fabian de bóias nos braços, um mergulha e passa raspando, deixando um rastro de bolinhas. Um thimbum, um chuá, outro é só gritos. E o Fabian agarrado no meu pescoço com um medo de 60 centímetros de profundidade. Ensino-lhe a bater os pés e a saltar timidamente para dentro d'água. E os risos seguem, as bolas infláveis vez por outra fazem uma vítima. O salva-vidas passa a cada dez minutos para ver se alguém já morreu e volta para a sua cadeira alta a fingir que não olha para a moça de biquini rosa fucsia. Mulheres grávidas quase a parir lustram a barriga no sol, bebês com fralda impermeável desfilam com suas perninhas tortas e os irmãos mais velhos afogam os mais novos em uma brincadeira vingativa por terem de ser eles a os vigiarem, enquanto a mãe enfarda batatas com ketchup.
E depois ao repetir a experiência, vemos os mesmos rostos desconhecidos, o Fabian volta a desejar o picolé e eu volto a dizer que não, que já comeu em casa. Saio de lá zonza e cansada, quase como se tivessem me passado no moedor e triturado meus ossos. Atiro- me no sofá e entrego o filho ao pai, para que gaste um pouco mais da bateria. Meu cérebro é uma gelatina e tudo que penso é que amanhã há mais. Estes são os quatro euros mais bem pagos deste verão.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Tanto tempo perdido
Ah se eu soubesse... Se tivessem me dito que não custava nada, que eu não precisava ter dito tantos nãos (ai os anos na completa ignorância!), que eu poderia correr livre e solta...eu tinha usado um absorvente interno antes.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Memórias de infância
A minha amiga Ana Carolina vestia calças e blusões de tricô, tinha os cabelos compridos como os meus e muitas vezes os lábios borrados de batom cor-de-rosa. Quando batia na sua porta, sempre abria a mãe dela, uma mecha de cabelos brancos presa em um rabo de cavalo e uma cara do qual nunca vi sair um sorriso. O que mais me intrigava era o cuidado que ela tinha com as bonecas da filha, frequentemente guardadas na caixa original logo após da brincadeira. A minha boneca-bebê vivia cheia da sujeira própria do
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Na sala de espera
Depois de falar incontáveis vezes que eu não estava doente, que a médica iria apenas examinar algumas partes do meu corpo para ver se estava tudo bem, o Fabian insistia no dodói na minha barriga. Até que eu cedi. Ele perguntava, eu tacava-lhe "hum hum" sem pestanejar. Ele virou-se para a estante repleta de folhetos informativos e sacou um dos ginecológicos que mais lhe chamou a atenção. Ficou longo tempo a olhar as figuras, folheava, depois voltava. " Mamãe, já sei poque tua barriga tá doendo". Ah é, porque? Sim, mãe, tua barriga tá cheia de bolinhas...ó! Vira-me o folheto e me mostra o desenho de um canal vaginal cheio de espermatozóides...
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Desabafo - XENOFOBIA
Eu morei em Portugal por seis anos e até então nunca tinha sofrido preconceito. Tenho a noção de que sou privilegiada no Brasil: branca, classe média e magra (na altura). Não tinha qualquer sentimento negativo com relação ao país nem aos portugueses, tinha sim, muita curiosidade de como seria a vida lá, no entanto uma sucessão de fatos foram acontecendo e aos poucos fui criando uma raiva e um nojo tão grande que até hoje luto para me libertar.
De segurança a me perseguir na loja quase até entrar no provador, de clientes em um restaurante que trabalhei a flertarem ostensivamente, querendo meu telefone e olhando para a minha bunda quando me virava, de colegas da faculdade sempre corrigirem o meu "brasileiro" porque para eles nós falamos brasileiro e não português. Todos os dias eu acordava na defensiva, mal notava que me encontrava sempre em estado de alerta, sempre pronta para alguma manifestação de preconceito. Teve uma que para mim foi tão surreal que ainda acho que não aconteceu. Fui ao cartório retirar a certidão de casamento que estaria pronta depois de um mês, cheguei lá e mostrei meus documentos para um senhor negro* que me atendeu. Ele foi até o computador na minha frente e chamou duas senhoras gordas* para verem a tela antes de imprimir. Elas se riram, eles todos se riram na minha frente e me chamaram em alto e bom som de "caçadora" na frente de outras pessoas que também esperavam, pois além de ter uma diferença grande de idade do meu marido (que aliás se não fosse ele, eu não teria emigrado), sou brasileira. E isto justifica tudo. Se no Brasil sofria com machismo, em Portugal era o combo machismo + xenofobia. E não era só dirigida a mim, mas era ligar a televisão e escutar "dois brasileiros assaltaram um banco em Lisboa", "brasileiros envolvidos em golpe", "brasileiras deportadas por ilegalidade e prostituição". Era abrir o jornal e dar com as mesmas notícias. Ah e os comentários, sempre carregados de ódio entoavam um mantra: voltem para a vossa terra monte de lixo! Para os portugueses os brasileiros se dividem em: homem/ladrão, mulher/puta. A situação de xenofobia começou a ter níveis tão altos que criaram uma lei que era proibido dizer a nacionalidade dos infratores.
Por um lado eu entendo o protagonismo que nós brasileiros, juntamente com ciganos, africanos e mais tarde ucranianos tivemos em folhas policiais, pois Portugal era um país tão calmo que as notícias às vezes tinham de falar de uma porca que atolou num vilarejo (esta é verdade mesmo) para encher linguiça. Mas quanto mais davam importância a pessoas que foram para bagunçar, mais aumentava o ódio para com aqueles que acredito ser a maioria, vivem suas vidas honestamente.
Hoje resido na França há quase um ano, porém com o episódio da derrota do Brasil na copa, reacendeu o ranço que os portugueses tem disfarçado em futebol. Meu facebook inundou-se de posts a ridicularizarem o Brasil, os brasileiros e eu por ter passado e sentido esta raiva na pele, não acho tão inocente assim. Teve gente que partilhou um vídeo de uma senhora com deficiência mental para gozarem, a que eu achei de uma profunda falta de respeito.
Não fiquei triste nem horrorizada com a derrota do Brasil que pelo que tinha demonstrado em campo, era inevitável. Fiquei sim, muito chocada por estar revivendo mesmo que virtualmente tudo que passei na pele. E tal como vejo dizerem aqui "não aguentam nem meia horinha de misandia", uns não aguentaram nem três posts meus a criticar, que dirá seis anos de xenofobia.
*Dei esta informação pois se tratando de pessoas que sofrem outras formas de opressão, imaginei que tivessem mais simpatia e ao menos deixassem para debochar quando eu não estivesse mais ali.
Eu morei em Portugal por seis anos e até então nunca tinha sofrido preconceito. Tenho a noção de que sou privilegiada no Brasil: branca, classe média e magra (na altura). Não tinha qualquer sentimento negativo com relação ao país nem aos portugueses, tinha sim, muita curiosidade de como seria a vida lá, no entanto uma sucessão de fatos foram acontecendo e aos poucos fui criando uma raiva e um nojo tão grande que até hoje luto para me libertar.
De segurança a me perseguir na loja quase até entrar no provador, de clientes em um restaurante que trabalhei a flertarem ostensivamente, querendo meu telefone e olhando para a minha bunda quando me virava, de colegas da faculdade sempre corrigirem o meu "brasileiro" porque para eles nós falamos brasileiro e não português. Todos os dias eu acordava na defensiva, mal notava que me encontrava sempre em estado de alerta, sempre pronta para alguma manifestação de preconceito. Teve uma que para mim foi tão surreal que ainda acho que não aconteceu. Fui ao cartório retirar a certidão de casamento que estaria pronta depois de um mês, cheguei lá e mostrei meus documentos para um senhor negro* que me atendeu. Ele foi até o computador na minha frente e chamou duas senhoras gordas* para verem a tela antes de imprimir. Elas se riram, eles todos se riram na minha frente e me chamaram em alto e bom som de "caçadora" na frente de outras pessoas que também esperavam, pois além de ter uma diferença grande de idade do meu marido (que aliás se não fosse ele, eu não teria emigrado), sou brasileira. E isto justifica tudo. Se no Brasil sofria com machismo, em Portugal era o combo machismo + xenofobia. E não era só dirigida a mim, mas era ligar a televisão e escutar "dois brasileiros assaltaram um banco em Lisboa", "brasileiros envolvidos em golpe", "brasileiras deportadas por ilegalidade e prostituição". Era abrir o jornal e dar com as mesmas notícias. Ah e os comentários, sempre carregados de ódio entoavam um mantra: voltem para a vossa terra monte de lixo! Para os portugueses os brasileiros se dividem em: homem/ladrão, mulher/puta. A situação de xenofobia começou a ter níveis tão altos que criaram uma lei que era proibido dizer a nacionalidade dos infratores.
Por um lado eu entendo o protagonismo que nós brasileiros, juntamente com ciganos, africanos e mais tarde ucranianos tivemos em folhas policiais, pois Portugal era um país tão calmo que as notícias às vezes tinham de falar de uma porca que atolou num vilarejo (esta é verdade mesmo) para encher linguiça. Mas quanto mais davam importância a pessoas que foram para bagunçar, mais aumentava o ódio para com aqueles que acredito ser a maioria, vivem suas vidas honestamente.
Hoje resido na França há quase um ano, porém com o episódio da derrota do Brasil na copa, reacendeu o ranço que os portugueses tem disfarçado em futebol. Meu facebook inundou-se de posts a ridicularizarem o Brasil, os brasileiros e eu por ter passado e sentido esta raiva na pele, não acho tão inocente assim. Teve gente que partilhou um vídeo de uma senhora com deficiência mental para gozarem, a que eu achei de uma profunda falta de respeito.
Não fiquei triste nem horrorizada com a derrota do Brasil que pelo que tinha demonstrado em campo, era inevitável. Fiquei sim, muito chocada por estar revivendo mesmo que virtualmente tudo que passei na pele. E tal como vejo dizerem aqui "não aguentam nem meia horinha de misandia", uns não aguentaram nem três posts meus a criticar, que dirá seis anos de xenofobia.
*Dei esta informação pois se tratando de pessoas que sofrem outras formas de opressão, imaginei que tivessem mais simpatia e ao menos deixassem para debochar quando eu não estivesse mais ali.
Assinar:
Postagens (Atom)