sábado, 15 de novembro de 2014

Tipo "Ensaio sobre a cegueira" ou Walking Dead mesmo

Chego no mercado com a minha carrocinha que é como eu chamo aquela sacola com rodinhas e vejo um cenário catastrófico, digno de filmes de apocalipse zumbi. Prateleiras vazias, algumas sem nenhum artigo. Agitação dos funcionários estoquistas: nunca, nunca, nunca vi coisa igual. Será que lançaram alguma promoção ao estilo pague um e leve três? E eu que só queria comprar pão... não tem. Mas e salgados? Não tem. E bananas? As únicas coisas que jaziam ali eram batatas e alfaces. Lá consegui salvar um pack de iogurtes agarrando-o como se fosse um tesouro esquecido. É meu, ninguém me tira! Lancei um olhar desconfiado em roda da ala dos congelados.
 Dirigia-me ao caixa quando li em um dos cantos da prateleira um bilhete impresso em letras ordinárias: no sábado, dia 15, esta loja irá fechar às 16 horas. Mas por quê??? Olhei para o relógio e percebi que faltavam apenas cinco minutos. Perguntei à funcionaria enquanto ela me estendia uma dezena de moedas, por que estavam fechando tão cedo. Acontece que iam mesmo se mudar, coisa que tinha esquecido depois de ter sido marcado para outubro e nunca mais mencionarem fazê-lo. Pois agora era assim? Não põem um aviso na porta duas semanas antes, nem isto nem o novo endereço do mercado? Não duvido nada de que aquele aviso tenha sido plantado na véspera ou quiçá no próprio dia. Irrita-me muito esta historia do "se virem" aqui na França. Dá-me vontade de dizer que isto não funciona no comércio onde o cliente é como um bebê que adora ser bajulado e carregado ao colo. No Brasil este setor de marketing ia mirrar à fome. Querem ver que a lógica é o cliente sair por seus pés a adivinhar para onde é que o Simply foi? Oh, claro que já estou me vendo fazer isto, vou é no Lidl isto sim!

Sexy Yemanjá

Está aberta a temporada de fotos  de pés na areia, da ostentação de quem tem um pedaço para a cadeira e o guarda-sol, sim que isto do sol nasce para todos é verdade: tanto para os que vão para o litoral quanto para os que ficam a torrar nos quarenta graus de Porto Alegre (ou Forno Alegre como é mais conhecida por estes meses de verão). E isto só me faz aumentar a ansiedade de ir morar novamente perto do mar. Vêm-me musicas solares, ainda dos tempos de infância, de quando desejava que a minha mãe esquecesse de me tirar da frente da tv na hora da novela das seis.  
Creio que a minha memória musical é ainda melhor do que a visual e ultimamente tenho me "enliado"* em canções antigas e as ouço em looping, às vezes mais alto do que costumo. Já não tenho tanto cuidado com os vizinhos que resolvem discutir a relação da meia noite até a uma da madrugada com direito ao homem esmurrando a porta e estar mais de dez minutos a massacrar a campainha, enfim. Fodam-se, que ouçam eles também. 
A música tem sido uma parte importante nestes momentos de solidão, tenho necessidade de escutar a minha língua, quase como se duvidasse da minha capacidade de retê-la, como se não quisesse esquecer-me de quem sou. Sempre achei este processo de adaptação moroso e dolorido... Até quando estou me adaptando e até quando estou me aculturando? Ainda não consigo escutar nada em francês, com exceção de duas músicas, nem tenho interesse de procurar algo que me agrade. 
Começo com Sexy Yemanjá, tudo a ver com o mar, viajo para escutar a voz rouca do Fernando cantando "Apesar de você amanhã há de ser outro dia" enquanto distraidamente seca a louça, volto para Chega de Saudade, passo por Espelhos d'agua (que vontade de perguntar se ainda é cedo)...E termino com Maluco Beleza controlando minha maluquês misturada com minha lucidez. Posso dizer que já estou em outro nível de loucura: nem falo mais com os meus amigos imaginários, estamos de mal. Deu para notar que pensei em falar sobre uma coisa e terminei com outra, mas no fim, acreditem que está tudo ligado. A loucura. A solidão. Os pés no facebook. 




*enlaçado à moda da minha terra.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Onde está Wally?


E estando novamente nestas andanças de percorrer sites de imobiliárias em busca do "tal", tenho observado o pior drama de um corretor: espelhos! Coitados, fazem de tudo para não aparecerem, mas lá fica o registro de um pé, um topo de cabeça, a mão com a câmera piscando em flash. Alguns arriscam posições de yoga, formando um arco com as costas, malabarismos que me fazem pensar que tem um segundo emprego no Cirque du Soleil (são canadenses, eu sei, mas vá que?). 
Tentam incansavelmente e até da pena, mas é quase impossível não deixarem vestígios, mesmo em uma casa vazia, mesmo em um cômodo pouco iluminado, afinal qual é a casa que não tem um mísero espelho que seja?




terça-feira, 4 de novembro de 2014

Era uma vez...



Compramos uma bicicleta para o Fabian pela internet. Vinha 95% montada, eles diziam. Pois chegou com os pedais para encaixar (facílimo), o banco para ajustar, o guidon e o freio por arrumar e uma frescurinha de ferro para atar na parte ao lado da roda traseira. Passei por várias fases: a "bricoleur" entusiasmada, a mãe perdida, a adolescente irritada com a porcaria do manual que não diz como montar, a monja que meditava para não arrancar os cabelos, a louca que quase mastigou os parafusos de raiva, a política que sai para procurar alguém que faça o trabalho por si. A história teria um final feliz caso o cara que conserta bicicletas não quisesse 50 euros por fazer o que ele faria com um pé nas costas em dez minutos. Além dos cinquentinha, só vai deixar pronta amanhã. Resignada, anuí em pegar a bicicleta a partir das nove e meia da manhã. Podia ao menos sorrir né? Mas não, o cachorro labrador preto  era muito mais cordial que o dono, me recebeu com o rabo abanando e me deu tchau lambendo minhas mãos. Quando a gente é assaltado assim, faz bem uma atenção destas!



Dá para ver pelas fotos que o senhor recebeu tudo quase de mão beijada. Aff...





Um dia de outono

De repente estava parada em frente à porta da escola do Fabian, levemente encostada no corrimão da ponte que nos leva até ela. Mulheres se aglomeravam a minha volta, falando, falando e falando. Por alguns instantes deixei correr solta minha cusquice habitual, falavam de carros mal estacionados e no quanto isto as enervava. Foi em um clique imperceptível, quando vi, já não estava mais lá. Uma gralha sobrevoou o céu cinzento e como em um feitiço qualquer, todas aquelas vozes transformaram-se em seu lamúrio animal. Crá crá crá. Retumbavam em minha cabeça. Crá crá crá. 
Às vezes a solidão prega-me peças destas, em um minuto estou aqui e no seguinte já estou voando longe. Racionalizei que era-me muito fácil ignorar uma língua ainda estrangeira, uma língua que me diz pouco, quase nada. Chuto-a para o canto assim que ponho os pés dentro de casa. Não quero ver nem tampouco ouvir falar nela. E qual criança birrenta lembro-me do meu desespero quando me tornei emigrante pela primeira vez.  Foi um parto difícil, sentia-me recém arrancada de todo o conforto que conhecia, senti-me lançada a uma luz fria, um terreno hostil. Pronta e nua, a vida disse depois de me parir: fiz a minha parte, agora estás por ti. Não era verdade que estivera só, mas ao mesmo tempo era. Há caminhos que só a solidão pode fazer sentido. Por muito tempo ouvir o português de Portugal me machucava, feria meus ouvidos como se tivesse em uma cela escura a ouvir intermitantemente o mesmo ruído de uma gota a pender rumo ao chão. Hoje não sinto mais esta gana de saber por toda a parte um idioma (ou sotaque) que não é meu, chamando-me à razão de que não pertenço aqui. Ao invés da raiva há o abandono, braços pendidos, pensamentos soltos em espiral. 
Não sei se é do tempo...inverno e outono são para mim as estações mais deprimentes que existem. O céu em armadura opaca proibe o sol de aparecer, mantém-no prisioneiro semanas a fio. E mantém-nos igualmente em estado letárgico, enquanto nossas folhas desabam uma a uma até nada mais restar...

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Fica para a próxima

Fui assaltada por fantasmas e bruxas! Levaram-me todos os doces da casa!
Ano que vem estou pensando em pendurar na porta este cartaz, só  não sei se os vai enxotar ou o contrário .