sábado, 22 de novembro de 2014

Saudades eternas

Dos cabeleireiros do Brasil. Sério, é a última vez que assassinam os cabelos do Fabian. Tadinho...
Acho que a especialidade deles é a franja da Angelina Jolie em "Garota Interrompida". 
Ou aprendo a cortar cabelo ou entramos daqui uns tempos no livro dos recordes de  maior juba do mundo.



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Update filmográfico

Stonehearst Asylum


E se os loucos dominassem o hospício? E se os médicos fossem presos durante tempo suficiente para enlouquecerem? 


Costumo brincar dizendo que dificilmente vejo mais do que um filme marcante por ano. A maioria é uma porcaria apenas para passar o tempo, alguns gatos pingados são dignos de um espaço na minha memória; agora aquele filmaço que mexe comigo e me põe a questionar a vida, ah, este dá-me tanta alegria que se torna impossível guardá-lo só para mim!
Stonehearst é uma adaptação de um conto de Edgar Allan Poe, ambientado no século 19 em uma Inglaterra fria e cheia de bruma.  Numa época em que a loucura era mais do que um estigma mental, tornando-se socialmente rechaçada, os doentes que padeciam deste mal eram trancados em lugares ermos, isolados como se fossem portadores de qualquer coisa muito contagiosa. Os métodos para a cura passavam por choques, banhos de água fria, camisa de força, isolamento total. Tais métodos poderiam muito bem serem mais eficazes para enlouquecer do que para o propósito a que se destinavam. 
Esta é uma obra inteligente, daquelas que colocam o dedo na ferida e deixa-nos com um certo incômodo filosófico.  O que é loucura? Seríamos nós naquele tempo considerados loucos por alguma particularidade que hoje é tida como natural? Sabendo que seu conceito é fluido e que já abrangeu tanto a homossexualidade quanto o simples ensejo de prazer por parte das mulheres, a loucura não deixa de ter um papel na nossa sociedade. Tal como os gregos diziam que era necessário haver escravos para que o homem livre possa saber-se livre, é necessário existir a loucura para que se possa perceber a sanidade. 


Hysteria

Doutor, mais um pouquinho para a direita, não, mais para cima...mmmm isto, ai.. oh...

Novamente a Inglaterra sob pano de fundo para esta comédia (na verdade eu vejo como tragicomédia porque a vida sexual feminina naqueles tempos é de chorar), um jovem médico frustrado com a teimosia de seu antigo superior, resolve mudar de especialidade e acaba em um consultório a tratar de mulheres histéricas. 
Antigamente pensava-se que as mulheres eram temperamentais, inseguras, agressivas, tudo por possuírem um útero (hystera em grego).  A histeria era uma condição tão abstrata que se poderia  manifestar qualquer comportamento e/ou condição física para ser diagnosticada como histérica: apatia, palidez, cólera, frigidez, vontade de fazer sexo, dor de dentes, desmaios, etc. O tratamento variava entre sessões de hipnose, consulta psiquiátrica e masturbação profissional, sendo que nos casos mais graves optava-se  pela retirada do órgão. 
Mentalidades dominadas pela ideia do sexo como um ritual sagrado, pela vergonha, culpa e sofrimento pelos desejos reprimidos: à mulher basicamente não permitia-se sentir prazer. Fico pensando como era as dondocas tão cheias de pudor a arreganharem as pernas para o médico fazer-lhes uma "massagem na vulva". A cura através de um orgasmo. Casto. Legitimado por uma questão de saúde física e mental da paciente. Chega a ser tão caricato que é difícil acreditar que tenha acontecido.
Em meio a isto, o novato depara-se com a filha mais velha do seu patrão: um caso incurável de histerismo beirando à loucura. A jovem benemérita passa o seu tempo a ajudar os mais necessitados, sonha com o voto feminino e a igualdade dos sexos mas, que pela rudeza do pai em não aceitar suas escolhas, grita e o enfrenta. Histérica. Este era o diagnóstico dado a qualquer mulher que ousasse requerer seu  espaço em uma sociedade dominada pelo homem. Um filme para pensar... Ainda que a mulher possa votar, frequentar uma universidade, escolher com quem irá se casar, será mesmo que superamos esta visão tão século 19? Ou ainda somos tachadas de pouco racionais, emotivas, justificando-se tais características pela fisiologia feminina seja através da crença de cérebro distinto, seja pelo ciclo menstrual?  Por que esta suposta instabilidade é fortemente ligada à negação de uma vida sexual plena? Por que qualquer coisa é motivo para ofender de mal amada ou mal comida ou  pior, soltar a famosa expressão "isto  só pode ser falta sexo"?
 De qualquer maneira, um grande chupaaaa para Freud e suas teorias do ciúme do falo: há por aí de todos os tamanhos e cores (e com várias velocidades também). Este filme conta acima de tudo, uma história sobre a compensação feminina e a busca pelo protagonismo de seu prazer. 




Você percebe que está com falta de sexo quando...

Olha para esta foto no facebook e pensa se o marido não se importará.




terça-feira, 18 de novembro de 2014

Bla bla bla meritocracia

Tem gente que parece que vive em uma eterna propaganda L'Oreal: porque eles merecem!


Eu já estou tão cansada de dizer o óbvio, mas parece que ainda é preciso. Quando falo que o Brasil deveria ser um país de bem estar social, e que fico feliz com algumas medidas afirmativas  (embora estejam longe do ideal, são muito mais do que grande parte da população já teve), não estou falando em premiar os que nada fazem. Dói ver alguns conhecidos estufarem o peito e dizerem: estou aqui onde cheguei por mérito próprio. E dizem-no enquanto rosnam contra as cotas para os pobres, negros e índios nas universidades públicas, contra as bolsas que o governo oferece para que os pobres ponham as crianças na escola ao invés de estarem nos semáforos a pedir dinheiro. Dói e não só dói como dá vontade de falar que merecem sim, uma ova ou um ovo (podre) nesta cara. 
Ao dizerem que merecem estar ganhando quatro, cinco mil reais, ir a Miami ou andar em um carro zero por fruto de seu trabalho, estão agindo como esquizofrênicos sociais. Mais ou menos isto:  dois obesos necessitam emagrecer. Enquanto um tem dinheiro e faz uma redução de estômago, o outro tem que penar, passar fome, caminhar na rua ouvindo "lá vai o botijão", olhar muitas vezes frustrado para a balança que não baixou quase nada. Depois de meio ano, o gordo que fez cirurgia emagreceu trinta quilos, enquanto que o outro com muito esforço perdeu dez. Ah mas a culpa é dele que é preguiçoso! Podia ter levantado mais cedo e aumentado em duas horas o treino de cardio. São assim, estes queridos amigos e conhecidos que pensam com tal arrogância que chegaram onde estão por mérito tão e somente deles e dos pais que trabalharam para que pudessem receber uma boa educação. 
Há por aí uma charge que infelizmente não encontrei... trata-se de duas crianças, uma está em cima de um livro roto no qual está escrito "ensino público", e tem um homem a olhar para ela dizendo que não consegue alcançar o sucesso porque não se esforça o bastante. A outra está em um plano elevado por uma dezena de livros, em que se lia coisas como "tempo livre", "aulas de inglês",  "cursinho de vestibular", "intercâmbio", "ensino privado", etc, etc. Ao seu lado estão seus pais a vibrarem e a seguinte mensagem: vai lá, filho! Você merece! 
Não quero dizer que é mau ter tido a oportunidade que tivemos, mas que é cinismo esquecer de que somos privilegiados. Ora, encontramos a estrada pronta e asfaltada, sendo uma escolha nossa percorrê-la ou não. Enquanto outros tem-na esburacada e cheia de interrupções, pedágios e obstáculos, culminando em subempregos mal remunerados. Como disse a atriz Thaís Araújo (uma das poucas atrizes negras da Globo), "não há nada de errado em ser doméstica, o problema está em sê-lo por falta de opção". E é aí onde quero chegar: quando as chances de crescimento se equipararem para todas as classes sociais, cujo ponto de partida passa a ser o mesmo, só então poderemos falar em mérito por uma ascensão social e/ou econômica.  E não me venham lá com a história do Silvio Santos contada como se fosse novela mexicana: de camelô a dono de emissora de tv. Porque a única coisa que a meritocracia faz, é premiar os que já estão na ribalta, com a papinha mastigada, e sendo bastante realista, são estes o que na verdade menos se esforçaram para chegarem onde estão.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Fabionices

Ao ver eu trocar a lâmpada queimada, o Fabian disse: 
"Sabia que na nossa casa é a felicidade que faz tudo funcioná?"
Acho que ele quis dizer "eletricidade", mas bem que seria interessante pagar a conta de luz com sorrisos e abraços. (Só não sei se a Énergies Strasbourg ia achar graça).


                                     ***


Mãe, a chuva cai quando a nuvem se sacode? E sai água pra cima e pra baixo também?



                                     ***

Mãe, podemos fazer un gateau d'anniversaire no Natal para o Père Noël comer na casa dele? Ele vai gostar muito! *


* Não sei o que andaram dizendo na escola, mas ele esta pensando que quem nasceu neste dia foi o Papai Noel...

O Bisa ( ou vô Schuch como eu chamava)

Você disse bala? Não sei de bala nenhuma.


Houve um tempo em que o meu bisavô morou com os meus avós. Lembro-me pouco dele, cada vez que tento mentalmente desenhar o seu rosto, é como se existisse um filtro destes de instagram que deixam tudo embaciado. Ele quase não saía de casa, tinha uma poltrona de couro escuro recostada na janela, da qual conferia cuidadosamente a obra do que mais tarde seria o prédio da Policia Federal no outro lado da rua. 
Meu bisavô tinha os olhos azuis que passara em molde a minha vó e o corpo magro de ossos largos como o dela. De maneira que hoje olhar para minha vó,  é reconhecê-lo através deste véu. Dizem que era tão austero e seco, o alemão, que nem as filhas, nem os cinco netos um a um foram capazes de amolecer aquele mau gênio. (Mas que eu o fiz). Sinto-me orgulhosa disto, embora não saiba muito bem o porquê nem como.
 Lembro-me de pedir-lhe balas de menta; "bainha fóti". E que ele me dava sempre, para o desespero da minha mãe, mesmo antes do almoço. Mas eu prometo que como tudinho, eu chorava. Minha mãe tinha já a enorme mão branca estendida em direção a minha boca. Momentos antes, o meu dilema era se escondia na curva do céu da boca e falava "mmmmm mmmm" ou se a punha para um dos lados e respondia a desafiar à mãe, que não, imagina, eu não tinha comido bala. E a sua expressão a encarar a filha boca-de-hamster oscilava entre a irritação e o esganar de um sorriso. 
Um dia meu bisavô foi para um asilo e de lá não retornou. Fui visitá-lo uma ou duas vezes, mas achava estranho tanta gente velhinha junto e o modo como me olhavam saltar e correr, tinha a impressão que incorporava muitas figuras de seu passado. Quem sabe uma filha ou neta ou até mesmo eles quando ainda tinham as pernas ágeis e o fôlego quase infinito. 
Meu padrinho conta que o bisa nunca deixava os bolsos da camisa vazios, havia sempre uma bala de menta para mim. Houve muitas balas enquanto ele morava naquele apartamento, sentado à janela. E quando morreu eu não pude vê-lo, mas não chorei, nem perguntei nada. Foi a primeira vez que encontrei com a morte, vi-a de muito longe...a segunda vez foi de lado, a terceira de frente e a quarta de raspão. Todas doeram de uma maneira distinta. Embora eu naquela época com a idade do meu filho não soubesse precisar o quanto podia ser definitiva, esta deixou-me um gosto na boca, ou a falta de um sabor de menta...

sábado, 15 de novembro de 2014

Tipo "Ensaio sobre a cegueira" ou Walking Dead mesmo

Chego no mercado com a minha carrocinha que é como eu chamo aquela sacola com rodinhas e vejo um cenário catastrófico, digno de filmes de apocalipse zumbi. Prateleiras vazias, algumas sem nenhum artigo. Agitação dos funcionários estoquistas: nunca, nunca, nunca vi coisa igual. Será que lançaram alguma promoção ao estilo pague um e leve três? E eu que só queria comprar pão... não tem. Mas e salgados? Não tem. E bananas? As únicas coisas que jaziam ali eram batatas e alfaces. Lá consegui salvar um pack de iogurtes agarrando-o como se fosse um tesouro esquecido. É meu, ninguém me tira! Lancei um olhar desconfiado em roda da ala dos congelados.
 Dirigia-me ao caixa quando li em um dos cantos da prateleira um bilhete impresso em letras ordinárias: no sábado, dia 15, esta loja irá fechar às 16 horas. Mas por quê??? Olhei para o relógio e percebi que faltavam apenas cinco minutos. Perguntei à funcionaria enquanto ela me estendia uma dezena de moedas, por que estavam fechando tão cedo. Acontece que iam mesmo se mudar, coisa que tinha esquecido depois de ter sido marcado para outubro e nunca mais mencionarem fazê-lo. Pois agora era assim? Não põem um aviso na porta duas semanas antes, nem isto nem o novo endereço do mercado? Não duvido nada de que aquele aviso tenha sido plantado na véspera ou quiçá no próprio dia. Irrita-me muito esta historia do "se virem" aqui na França. Dá-me vontade de dizer que isto não funciona no comércio onde o cliente é como um bebê que adora ser bajulado e carregado ao colo. No Brasil este setor de marketing ia mirrar à fome. Querem ver que a lógica é o cliente sair por seus pés a adivinhar para onde é que o Simply foi? Oh, claro que já estou me vendo fazer isto, vou é no Lidl isto sim!