quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Voltei

 Segundo dia naquela sala, poucos colegas e todos à volta dos setenta anos. "É um clube de aposentados", falou a professora com um sorriso meio borrado. Sim, foi para aqui que a Mairie me enviou quando perguntei sobre um curso de francês para estrangeiros. O curso se chamava "Auxilio à leitura em francês" e estava entre os de tricot, bordado e pintura. 
Somos em cinco: dois ingleses (Gavin e Jane), uma colombiana (Leonor) e um sueco (Boo ou seja lá como se escreve). Muito simpáticos e cheios de histórias. Por exemplo, ficamos sabendo do romance de verão de Boo com uma mulher casada e da sua preocupação em manter os níveis de testosterona. Hoje falamos sobre AVC, sobre a cirurgia no olho de Gavin por conta da pressão alta. Enfim, sinto-me como estivesse falando com os meus padrinhos, em casa, portanto. E feliz.
Jane quis saber porque deixei o Brasil e eu imagino que tenha passado a semana esperando para ouvir a resposta, já que ao final da primeira aula disse que não me achava deslocada, pois convivo com meu marido que tem 60 anos. 
A boa noticia é que apesar do Fernando estar constantemente me puxando as orelhas, quando digo que estou aqui fez dois anos em setembro, eles ficam admirados porque falo muito bem. Cof cof. Nem tanto, ainda tenho uma conjugação verbal terrível e às vezes escorrego o pé no inglês. De qualquer forma, para quem teve sempre dificuldade em línguas, acho que estou indo bem. Podia estar melhor, podia, mas agora com objetivos e aulas novamente, sinto-me mais estimulada a praticar. E hoje adquiri meu primeiro livro em francês: Nouvelles à Chute. Segundo a professora, pequenas histórias com final surpreendente  (como foi a minha vida ao deixar o Brasil). Quem diria, euzinha? 

Sobre o outro blog

A quem me enviou email, aquele blog eu fechei há muito tempo, desculpa!

domingo, 27 de setembro de 2015

Ah esta coisa que nunca sai de moda...o pensamento binário


Aqui de boas esperando dizerem que sou assim porque sou filho único.



Estes dias li um textão super "emocinante" sobre a tragédia que é ser filha única. Dizia a autora enquanto esperava o pai fazer uma ultra-sonografia, que é um terror não ter irmãos. Porque se, ou melhor, quando os pais morrerem ela vai estar sozinha nesta dor e daí eu me pergunto, se tivesse irmãos seria tão diferente? Além de cada um viver o luto de uma forma, o que as pessoas não entendem é que a vida não é uma equação. E caso fosse, os exemplos que tenho são muito mais negativos, de desunião ou de simples indiferença entre irmãos que só me resta pensar ser uma falácia a história de que ser filho único é sinônimo de infelicidade.
Ah deem um irmãozinho para ele, é o melhor presente que se pode dar a um filho. Não. Para. Meu filho tem ciúmes do meu cachorro: passo o tempo todo dizendo para ele não machucá-lo, para ter jeito com as brincadeiras brutas, chega a ser tão desgastante que às vezes me arrependo de ter pedido para minha vó trazê-lo. E se ele faz isto com um animal, imagino o que seria com um bebê que demanda muito mais cuidados e atenção (fazendo um exercício de abstração e esquecendo o fato de que eu não toleraria mais nenhuma criança na minha vida). Será mesmo que um irmão é a melhor coisa a se dar "de presente"? Um elemento que vai perturbar ainda mais a logística familiar e, levando em conta a experiência de quem passa por isto, não poderia fantasiar de que seriam amigos e brincariam juntos, quando o que mais ocorre é o contrário. Brigas e disputas por brinquedos e pelo amor dos pais. Ah," é bom para aprenderem a não serem egoístas". Sim, porque quem tem irmãos são como a madre Teresa né? E quem não tem são como quem, o Darth Vader? Pessoas, admitam que querem ter mais filhos por vocês e parem de arrumar justificações baseadas em fluxograma de família feliz. E para a autora, gostaria muito que ela parasse de se iludir com historinhas de novela...às vezes os verdadeiros irmãos (que nos fazem ser pessoas melhores), são aqueles que escolhemos pelo caminho.

sábado, 26 de setembro de 2015

Ah então como foi a primeira aula de boxe?

Foi boa. Se eu fiquei assim, imagine o saco!
Se você pensou que ele ficou lá paradinho  na dele como se nada tivesse acontecido,  acertou.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Turismo pau de selfie



Neste mês tivemos a visita de uma prima do marido com o seu esposo e o filho. Era para ficarem pouco mais de uma semana, mas depois de várias mensagens postergando a estada ora porque iam dar uma passadinha na Normandie, ora porque resolveram voltar à Itália para conhecer Pisa, ora porque isto ou aquilo, acabaram por ficar aqui três noites apenas. Já tinha virado gozação entre nós, "o que foi, a fulana vem amanhã? Não, resolveram de última hora já que é tudo tão perto, dar uma passadinha na Índia antes. E talvez estiquem até a China, quem sabe?".
Dois mil e muitos quilômetros depois e meio milhão de fotos pelo caminho, o resultado foi pelo menos duas pessoas na metade dos quarenta de olhar cansado, sendo puxados pelo filho dela, uma espécie de criança hiperativa de 22 anos. Não é exagero dizer que mais da metade das fotos eram exatamente iguais, tirando o pano de fundo que variava de três a quatro vezes por dia. Eles conheceram a capital Suíça, umas dez cidades italianas e praticamente quase todas as regiões francesas em vinte dias.  E eu estou aqui há dois anos e só conheço Strasbourg, Paris, a estação de Nice e pouco mais. Admito que deu uma certa inveja no começo, mas depois vi o que eles chamavam de turismo e para mim, mais se assemelha  a um estado permanente de ansiedade em fotografar tudo do que propriamente algo prazeiroso que é realmente conhecer outros lugares. 
Todas as noites, assim que conseguiam o sinal de Wi-Fi do hotel, ela descarregava 80, 90 fotos do passeio do dia. As mesmas fotos de ombro e tiradas de um ângulo de cima. Fico pensando e também faço a auto-crítica, se não houvesse Facebook, quão exponencialmente cairia a necessidade de fotografar tudo e mais alguma coisa? Se não houvesse para quem contar, ou como era "antigamente", apenas os familiares e amigos próximos soubessem  que dia tal estaríamos em Malága e que voltariámos alguns dias mais tarde, haveria esta necessidade de provas? 
Tento vasculhar minha memória à procura de quando isto foi um comportamento aceitável, mas não encontro. As pessoas viajavam, claro que havia os que se gabavam de viajar, as máquinas eram de rolo, as fotos eram menos repetitivas, levava-se uma eternidade para saber que afinal saímos com os olhos fechados ou vermelhos em metade delas. Mas não havia este desespero em provar que viajamos de verdade, que não nos socamos dentro de casa incomunicáveis. Realmente pudemos bancar a fortuna de uma passagem de avião à Europa, realmente andamos de gôndola e vimos a torre Eiffel e o Louvre (mesmo que não tenhamos entrado para não perder tempo). Hoje parece que as pessoas viajam para os outros, e o fazem com o cuidado de nos manter bem informados de como é bonito o teto da capela Sistina e de como são estreitas ruas  de Bergamo mesmo que eles não tenham se dado conta disto, estavam mais preocupados em não esbarrar no pau de selfie alheio. Duvido que guardem memória daqui dois ou três anos. Se não fossem estes registros pouco criativos, talvez pensassem estar tendo um déjà vu, caso voltassem a passar por lá. 
Durante o período que eles estiveram aqui, não ouvi em nenhum momento demonstrarem entusiasmo ou felicidade pela viagem. Pelo contrário, pareciam estar presos em um pesadelo e que não viam a hora de acordar. Sem saber me conter eu disse: é, agora acho que vocês vão precisar de umas férias para descansar destas...

Na França ser como as francesas



Uma das coisas que tenho aprendido aqui é que o assédio não é normal. Não é coisa de gente civilizada e nunca deveria ser um balançar de ombros, como se não tivéssemos escolha a não ser aceitar e fingir que não era conosco. É mais fácil assim, não foi comigo que aconteceu, mas com outra pessoa, aquela que atravessou a rua, aquela que sentou-se na minha varanda. Mas aquela não era eu, não pode ser eu.
Pois bem. Estava juntando o cocô do meu cachorro em um beco que dá para o estacionamento de um prédio. Passaram dois velhos que haviam estacionado o carro momentos antes, um deles olhou-me, olhou e olhou de novo. Parecia que eu era um frango daqueles dourados e que giram e soltam um cheiro que fez  o seu estômago revirar. Acontece que eu não sou um frango e lembrei-me disto justamente depois de morar na França. Nunca quis ser. E como se tivesse despertado de um sonho, quase mecanicamente e com a cara mais carrancuda que pude, lhe ofertei o dedo do meio. 
Já descrevi aqui o "paraíso" que isto é comparado ao Brasil no que toca ao assédio, mas isto não nos livra de vez por outra lidar com umas aberrações destas, como um sujeito de um edifício do outro lado da rua achar-se no direito de me espionar toda vez que sento na sacada. Teve alturas que cheguei a baixar o toldo para que ele não me visse, em outras simplesmente voltei para dentro de casa . Ora, agi justamente como fui ensinada todos estes anos: sou eu que devo mudar-me para que não seja "incomodada". Já mandei-o se foder, mental e fisicamente, meu marido já xingou para que parasse de olhar para cá. Inclusive fez com ele o que ele faz comigo: olhou fixamente para sua sacada até ele se sentir desconfortável e sair. Se adiantou alguma coisa? Um pouco. Ele está mais discreto, mas duvido  que mude. Já tenho treinado uma frase que usamos muito em português: perdeu alguma coisa aqui? Além de alguns palavrões caso haja insistência. Gritados bem alto e forte, como deve ser para que não me esqueça nunca de que não sou mais um frango. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Insônia

Parecia uma turbina de avião aquela hora da madrugada, mas eu sabia que era só o caminhão do lixo. O motorista mexe em uns botões, o colega desce e encaixa a lixeira do prédio. A máquina agarra, depois levanta e depois retorna ao chão. Nenhum barulho além do motor do caminhão. Nada de "êeee" e "ôooooo" dos homens. Lembro de quando o caminhão laranja do DMLU passava naquela rua, vinham em três, às vezes quatro e de luvas nas mãos. Sempre paravam para pegar o nosso lixo que sabiam vir acompanhado de frutas que o meu padrasto separava para o lanche. De vez em quando chovia muito, e ele se embaraçava nas próprias pernas, ou esquecia de pôr lá fora. Mesmo assim, eles batiam na campainha, sempre sorrindo, "bom dia!", carregavam o lixo e o lanche e êeeee que a caçamba fedida do caminhão nem sempre esperava. 
Lá era durante o dia bem cedo. Lá a gente enrolava milhares de jornais para ninguém cortar o dedo. Lá  sempre que estava calor demais ou quando o mundo desabava, sentia uma mistura de dó e admiração por quem fazia este trabalho. Alguém tem de fazê-lo, pois a cidade não pode viver em meio ao lixo, então alguém tem de viver. Aqui o caminhão foi embora e só restou os roncos do marido.