quarta-feira, 6 de março de 2013

O colecionador de mágoas

O corpo fala, filho. Tenhas certeza disto. Tu podes achar que não proferiste uma só palavra, mas ele trai-te desde o princípio, desde o primeiro choro até o último suspiro. Eu digo-te que fala e age conforme a petulância do teu coração. E como, perguntas-me. Lembra de algo que te incomoda, vês logo o teu peito a galopar, tens uma pontada no estômago, um tique no pé. Doem os dedos, estalamos como gostaríamos de fazer com alguns pescoços por aí. E não, nós fingimo-nos de surdos a cada vez que ele fala. Parece-nos que quer nos tirar o brio de civilidade e nos transformar em segundos em macacos selvagens de corpo nu. O corpo quer-se nu. Ele fala e nós não o escutamos. Teimamos e ele também teima por sua vez. Duas pessoas conversando são dois corpos falando ao mesmo tempo. Ganha quem souber ler o outro, quem parar de fingir e ouvir as mãos, os nós mal resolvidos. Ganha quem calar. Em suma. E é só. O corpo fala e trai-te. Quanto mais cedo perceberes, filho, mais saberás de ti e dos outros.
Sabe porque a arte é tão exagerada aos nossos olhos? É porque não tem pretensões para com a vida. A arte não imita a vida, não aquela que conhecemos. A arte imita o corpo. E daí que a notícia de uma morte causa um desmaio. Já viste lá alguém desmaiar quando outro morre? Eu não. E quando em desespero um sujeito se joga ao mar de roupa e tudo. E outro vomita quando uma situação lhe causa asco. Não, filho, ninguém o faz. Por acaso este teu velho pai aprendeu que há memórias que não se evocam, que há filmes que não devemos rever. E no entanto revemos. Sonhamos, sofremos, odiamos tudo outra vez. E a cada volta o corpo fala, aperta-nos com sofreguidão. Porque não o escutamos agora? O corpo não sabe do tempo, acha e vive como se fosse da primeira vez. Como se pudéssemos mudar naquele instante o que já é passado. O corpo não possui gavetas como eu para colecionar mágoas, pois se gavetas tivesse, estariam todas, filho, rasgadas ao chão até o último dos sentimentos.

terça-feira, 5 de março de 2013

No pediatra

Parece que a ausência do pai já fez sentir na pele, literalmente. O Fabian voltou a apresentar uma alergia muito feia embaixo dos braços, ele já tinha tido quando entrou na creche em Portugal, mas foi generalizado, nas pernas, braços e barriga. Desta vez não deixei aumentar e fomos na pediatra, pois é tudo emocional e além de uma pomada convencional, saímos com duas homeopatias para tratar a ansiedade e separação. Aproveitamos para checar o peso e altura e... temos um menino com medidas de criança que completou 4 anos. Um metro e 16 quilos, percentil 100 e 90 respetivamente. 
A mãe recomeçou o desfralde por conta dela (!!!) e vamos seguindo, pois ao menos dois xixis saíram no penico. É indo sem pressas...pena que o verão está acabando, muita chuva e noites e manhãs fresquinhas, muitas cuecas e calças na secadora. Ah e o marido já tem uma entrevista. Olha eu aqui cruzando os dedos! 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Facebookeando


Desapegar



Hoje comecei a fazer uma limpa nas minhas caixas, ainda devagarinho porque é tanta coisa... Já dei dois lençóis queen size que tinha para minha vó, que é a única que conheço que tem colchão desta largura. O computador de mesa darei para minha amiga ou para o meu cunhado, as facas darei para os meus dindos, o telefone sem fio para a minha mãe. Já pus o carrinho do Fabian à venda e a plataforma vibratória irá logo em seguida. Tenho a perfeita noção de que não farei outra mudança destas para a França porque é impossível fazer por avião e por navio é caríssimo, além de demorar quase meio ano para chegar. O melhor é pagar excesso de bagagem e levar somente roupa e calçado...talvez alguns brinquedos melhores e menos volumosos do Fabian. 
Há certas coisas de que não abro mão mesmo: elas são minhas saias, meus jeans, minhas blusas e alguns calçados. Novo não tenho grande coisa, a maioria das minhas roupas tem alguns anos, mas são de boa qualidade e estão como novas. As do marido terei de fazer uma triagem porque as melhores ele já levou e as do Fabian é mais fácil, já que o que não servir mais, fica e na Europa as roupas são bem mais baratas. 
Fácil, bem mais fácil seria se desapegar das pessoas, mas só se desapega quem teve ou tem apego (o que não é o caso). Mas que há gente que nos carrega para o fundo, isto há e minha esperança é que loguinho me livrarei de uma porção delas.

domingo, 3 de março de 2013

O blog

Somente aqui busco refúgio e é um alívio pelo menos neste espaço ser eu, expressar tudo que sinto. Porque não preciso responder com um "tá tudo bem" quando me perguntam como estou. Aqui posso xingar, posso chorar, posso esbravejar e dizer palavrões sem censura. É um lugar só meu. Não conto uma vida de rosas, porque não sou flor que se cheire. Aqui há drama, há sangue, há lágrimas. E não podia ser diferente porque isto é tão eu! Quem quer ler coisas alegres ou ver fotos que visitem outros lugares e quem quiser saber um pouco da minha vida que continue, será bem-vindo. Na minha página virtual quase nunca falo, não acho que deva transformar em um diário como o faz tanta gente. Não acho também que deva ser palco das minhas frustrações políticas, econômicas ou amorosas. Acho que ninguém tem a obrigação de aturar os meus lamentos ou as minhas alegrias, quando as tiver. Já no blog é diferente, sei que quem vem é porque quer saber exclusivamente de mim e daí não me culpo. Eu falo, eu confesso.
Hoje acordei com cara de quem responde o que tem de bom nesta porra, a quem dizer bom dia. Estou mãe solteira de novo, o marido com meia dezena de euros para recomeçar, mais ainda uns meses a aturar e dizer sim senhora na casa da minha mãe. E já começou todo o stress de novo de arrumar creche, arrumar emprego, de arrumar malas. Ou desarrumar malas. Volto à busca de trabalho para pagar a creche, é trabalhar para pagar somente porque não verei nem um real deste dinheiro. E poxas, depois ainda perguntam porque não quero mais filho. Deus me livre disto, já que do resto to longe de me livrar.

sábado, 2 de março de 2013

Saudade...

É a palavra mais bonita e ao mesmo tempo mais dolorida da língua portuguesa.

                                                                        


sexta-feira, 1 de março de 2013

A morte no sonho


"Tem momentos em que morrer é bom. É uma idéia antiga aquela que expressa a verdade que o grão na terra precisa morrer para que o broto apareça. Entretanto, morrer pode não ser nada fácil. Os sonhos mostram a dificuldade dessa passagem contando do medo, da dor, do choque e às vezes do alivio que a morte traz.
A principal razão do medo da morte nos sonhos está na falta de preparo da consciência para superar-se e dar o salto num plano superior. Essa simples frase que parece tão fácil de entender, pode ser muito sofrida na prática porque na vida real da psique, ou seja na nossa própria vida vivida na carne e no sangue, não temos garantias do que vai ser. Um processo de morte que se preze, que não seja mera prestidigitação do ego, inclui sentir a angústia do fim, da despedida, da perda. O que morre leva consigo um pedaço de vida nossa, e estamos vinculados afetivamente a tudo, mesmo aos momentos dramáticos que aparentemente gostaríamos de esquecer. Não é fácil morrer, nem morrer à vida ruim, porque acabamos por nos identificar com aquele pedaço de vida ou modo de ser. Não conhecemos outro. Abandoná-lo sem mais nem menos seria como andar pelados pelas ruas, aliás, pior do que isso, pois faltariam referências, coordenadas e sentido."  Adriana Nogueira.

Retirado do blog: 

Tenho matado muitas pessoas em sonho. Não matar assim na literalidade da coisa. Não, quando eu chego eles já estão mortos. O primeiro sonho foi com o meu padrinho, foi até engraçado porque cheguei no "céu" e passei a procurá-lo por todos os cantos. Encontro-o em um condomínio de luxo, com piscina, massagem, academia. Estava irada! Que então estamos lá embaixo a nos debulhar em lágrimas e ele numa boa?! 
O segundo morreu a minha vó. Eu que amo tanto a minha vózinha, estava muito triste, porém sabia que ela ia morrer logo já que o vô tinha ido uns meses antes. Pela ligação que havia entre eles, era comentado que ela não demoraria muito. Ia morrer de tristeza e assim foi. De alguma forma sentia-me culpada pela morte dela, era como se no sonho soubesse que sonhava e que havia "criado" toda aquela situação. 
Agora foi a ex mulher do meu marido quem morreu. Alguém trouxe a notícia e imediatamente fiquei paralisada. O medo e a culpa se colavam à mente. De repente senti vergonha da raiva que nutri por ela todo este tempo, como se as pessoas quando morressem virassem santas. E quem é que guarda rancor de santos? Estava em uma capela escura, perto de um banco de madeira. Lembro-me de passar a mão pela superfície lisa e pensar: agora ao menos podemos casar na igreja, agora que ele ficou viúvo para Deus. E eu nunca quis casar na igreja, mas ao menos queria casar de branco, podia ser em frente a um juíz. E depois vinha a vergonha novamente, porque afinal não queria que morresse, queria que ficasse bem viva para ver a nossa casa nova e as coisas que iria adquirir, as viagens que iria fazer…
Se pensar por este lado, da morte como o encerramento de uma etapa, do meu medo e resistência em deixar-me morrer um pouquinho, estes sonhos tem razão de ser.  Porque até da vida ruim nos acostumamos e passamos a estimar. Porque é uma parte de nós e ao ego custa sempre perder, mesmo que seja aquela vida que detestávamos. Continuo a dar muita atenção ao que sonho. Para mim sonhos são como mensagens do inconsciente trazidas em garrafas atiradas ao mar. Cabe a nós o trabalho de juntá-las e atribuir significado à consciência.