quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Mãe solteira

Não sou, mas agora vivo como uma. Minha mãe foi mãe solteira por alguns anos da minha infãncia, mas embora ela trabalhasse, nunca foi independente. Sempre teve meus avós e meus padrinhos dando cobertura quando precisasse. Isto é uma coisa que me aterroriza, hoje inclusive falei com o marido que tenho medo de limpar o aquário sozinha. Já o limpei outras vezes, é chato e trabalhoso, mas a rainha do drama que mora em mim, imagina-se a escorregar no azulejo e transformá-lo em uma chuva de vidros pontiagudos sobre a minha pele. Então e quem me socorre? Quem vai cuidar do Fabian? Não tenho ninguém. Esta solidão real me assusta, não aquela que me leva a falar sozinha, esta eu conheço de outros carnavais e até a suporto bem. 
Mas eu sabia que seria assim, e às vezes me pego pensando que se ficar viúva (Deus queira que demore muitos anos) vai ser mais do mesmo e isto me deixa ainda mais angustiada. Deito na cama e aquela silhueta contra a luz transformou-se no monte de cobertas vazias a que tentei em vão que se parecesse a algo com vida. Desisti de brigar com o sono e comigo: trouxe o Fabian com travesseiro, coruja, tapa-olhos e homem-aranha, para o meu lado e lá quando a noite  faz a curva, permito-me escorregar para os sonhos na esperança de não estar tão só. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

#somostodosracistas

Pois bem, a tia explica meu povo do facebook. Depois de me terem saturado a linha do tempo com tantas fotos, denúncias, pitacos, desaforos e paninhos quentes, resolvi eu abrir a boca, não lá, porque periga me fugirem os amigos todos de uma só vez. 
Para quem não sabe, a histeria coletiva agora é sobre um filme sem som capturado no estádio do arqui-rival do meu time, o Grêmio, de uma moça branca de olhos claros a gritar ma-ca-co. Bem assim, pausadamente. Tão pausadamente que se via o desenho inconfundível que sua boca articulou. Ela e mais um grupo xingavam o goleiro Aranha do Santos, bem atrás do gol. O grêmio perdia em casa por dois a zero e os gritos foram tão insistentes que o jogador pediu para os cinegrafistas filmarem os agressores, mas por um motivo qualquer nada foi divulgado até cair na net como aqueles filmes de celular que se espalham feito pragas e explodir em indignações. Foi no calor do momento, disseram uns. Aihnn mas somos todos macacos, dizia a loira magra. Alguém por sua vez levantou a bandeira do humanismo e outros gritaram virtualmente "racista", criticando a sociedade, as torcidas organizadas e tudo, tudo.
Minha gente, nós brancos somos todos racistas. - Pausa para o choque. - Porque racismo é estrutural, é uma coisa que não se escolhe, simplesmente se é. Vivemos em um sistema racista e que automaticamente por nossa branquitude nos dá privilégios, por isto não se trata de uma escolha, a menos que tenhamos a decência de sermos racistas em desconstrução. 
Este sistema racista, o qual nos reveste cada poro,  impede ao máximo a ascensão econômica da etnia negra, a auto-estima, a educação, a liberdade de crenças religiosas, etc. Basta apenas correr os olhos pelas profissões com maior retorno financeiro e lembrar quantas vezes fomos atendidos por médicos negros e depois quantos são os que nos recolhem o lixo, nos varrem a rua, nos entregam o gás ou nos faxinam a casa. É só reparar que tipo de papéis em novelas eles desempenham, é só olhar para as bonecas enfileiradas nas lojas, para as Barbies em 50 tons de loiro e com apenas uma amiga negra (ainda por cima de cabelo liso). É só olhar para a nossa história e relembrar que o incentivo à imigração de alemães, italianos, chineses, foram além dos motivos econômicos, uma questão de embranquecimento da população brasileira, que ainda assim, segue sendo em sua maioria  "parda", negra e indígena. 
Não vou nem falar das piadas. E dos ditos populares tais como "isto é coisa de negão", "nego só faz merda mesmo". Porque as mesmas pessoas que agitam os dedos apontando racismo, são as que abrem a boca para falar isto. Ah mas é só brincadeira, eu não estava falando sério! 
As pessoas acham que racista é aquele cara que um dia acorda e diz: hoje me deu uma vontade de tacar um pau num nego! Não é. Dizer que a coleguinha tem que alisar o cabelo ruim  para ficar mais bonita, é racismo. Pensar isto também. Aliás, falando em padrão de beleza, onde será mesmo que anda o negro nisto? Quantas modelos negras nas capas de revista? E quantas as  poucas atrizes inclusive estrangeiras que não tenham ainda passado por cirurgias para afinar o nariz, pintar o cabelo de loiro, alisar, tomar menos sol, etc. Veio-me agora na cabeça o chorume que foi a Lupita ter ganho de uma revista o título de mulher mais bonita do mundo. Quantas vozes se mostraram contra, alegando nada ter a ver com racismo e sim com gostos pessoais? E o que são os gostos "pessoais" senão imposições culturais, diga-se mais uma vez, de uma cultura racista? 
A hegemonia do belo como sendo o branco, principalmente o combo: branco, loiro, alto, magro de olhos azuis ou verdes. Coisa que mais me irrita é dizer que tal criança/mulher/rapaz é lindíssima/o e vai-se a ver é só porque tem os cabelos claros e olhos azuis, não há nada de especial em seus traços físicos analisando friamente, assim como me irrita a admiração desmedida principalmente por uma criança negra ostentar olhos claros ( que muitas vezes não passam de photoshop). Acompanhado daquela famosa frase: partilhe se você não tem preconceito. Gente, simplesmente parem! Tá ridículo. Vamos por a mão, as pernas, a cabeça principalmente, na consciência e parar de apontar o dedinho cheio de merda para o outro. Não pensem que só porque vocês não gritaram macaco são as grandes sapiências humanitárias, tipo dando uma de benfeitor de escravos, sinházinhas e sinhôzinhos indignados porque afinal de contas, vocês tem até amigos negros, né? Vocês até já namoraram um. Seus bisavós por parte de mãe eram negros... Parem de rodeio e repensem seus privilégios por serem brancos. Pensem que estudaram todos em colégio particular, que entre vocês e um negro quem tem mais chance de ser contratado são vocês, que é sem noção usar camiseta "orgulho branco", que a mulher negra é hipersexualizada, tida como quente e que só serve para casos e nunca para compromisso, comecem por estas frases automáticas que a gente tem vergonha de gritar em um estádio, que vocês chegam lá.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Tia Graça

Eu tinha seis anos quando deixei de colar feijões e corda em forma de letras. Sentia-me finalmente grande quando ganhei um caderno com linhas: naquele ano ia aprender a escrever! Julgo nunca ter até hoje encontrado pessoa com mais paciência do que a minha professora da primeira série, a professora Graça. Maria da Graça para a diretora, Gracinha para os pais e Tia Graça para nós. Tinha os cabelos cor de fogo, curtos, porém desgranhados para cima, e a pele tão branca que por vezes misturava-se com os dentes, constantemente à mostra. Era pouco mais alta do que os alunos e vestia calças de abrigo com tênis brancos.
Lembro-me de como eu era chata e insistente assim como meus outros colegas, com o quadro riscado à frente. Levantava-me com os meus garranchos e perguntava se podia mudar de folha ou de linha ou se estava bom a letra daquele tamanho, que torta, ocupava duas linhas ou três. Tia Graça sorria, passava as mãos nos meus cabelos e dizia que sim, com uma voz doce. Às vezes eu penso, poderia ser a vida como a tia Graça? Bem que poderia. A gente assim sem jeito, colecionando tropeços seja por falta de experiência ou de juízo e ela por fim, a nos responder doce e com um sorriso rasgado de que está tudo bem. 
Repito: nunca até hoje descobri criatura tão dotada de paciência...tem horas que eu olho para o meu filho e penso que nem Jó o aguentaria. Queria nestes momentos em que eu como errada, falha e impetuosa que sou, ser agraciada com um fiapo que seja do dom da tia Graça. Mas desconfio que até ela ficaria de cabelos (ainda mais) em pé...

Meu dia

Se resume a:

Mãe, o papai já tá quase demolando?

Mãe, o papai já vai chegá?

Mãe, tu vai botá a ropa em mim puque o pai vai nos levá de avião?

É lá na otra lua, mãe?

Nós vamo na paia? O pai já aumou a casinha pá nois?

Over and over again.

domingo, 31 de agosto de 2014

Um ano

Há exatamente um ano atrás eu estava no último andar do hotel, em um quarto incrivelmente pequeno em Paris. Tínhamos nos abraçado e quase gasto a saudade de quase meio ano separados. Andamos pelos jardins da torre Eiffel, tiramos fotos a três, procuramos um mc donalds para almoçar. Hoje ao contrário do que se passou, foi dia de despedida. Trocamos beijos e promessas sonolentas. Tenho um misto de emoções concentrado no estômago: a alegria juntou-se ao medo e o medo ao arrependimento. Fui eu quem tinha jogado a ideia ao ar de que precisávamos nos mudar, que afinal de contas de que vale ter um salário como empregado se o dinheiro desse apenas para pagar as contas e pouco mais? É preciso arriscar e toda escolha nos cobra um preço...
Nosso amor já nasceu da distância, creio que às vezes é dela que se alimenta, voltando sempre mais forte a cada mergulho nos braços do outro. E sempre achamos que esta será a última vez, o último beijo de despedida, a última saga de conversas no skype, a última vez que tenho de responder zilhões de vezes ao Fabian que o papai vai demorar e que na verdade eu não sei até quando.
Depois de quase dez horas em tgv, o marido chegará em Nice, dormirá em um quarto de hotel e depois em um quarto alugado tal como fizera quando chegou na França. A diferença é que enquanto passa pela provação dos três meses de experiência, estamos na nossa casa, o Fabian na mesma rotina escolar, com a dispensa abastecida e com dinheiro, graças ao destino (ou a nós) bem melhor do que aconteceu no Brasil. E a mim resta esperar e imaginar, tal qual a fatídica cena do Mr. Bean quando encontra o mar da Cotê d'Azur, a vida a imitar a arte.


ps: prometo ter cuidado ao atravessar a rua!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Rotina

Não pôde evitar olhar no espelho o seu rosto cansado no instante que durou o viajar da porta do armário do banheiro. Ele voltou a fechá-lo depois de espremer a pasta de dentes e da segunda vez ela preferiu olhar para o sinal que o marido tinha em cima do ombro, talvez a primeira coisa que reparara quando fizeram sexo anos atrás. Sentia a pele dos seios encostada às costelas, levemente caídos no grau de quem tinha amamentado dois filhos com pouca diferença de idade. Queria dizer-lhe e agora: o que fariam depois de tudo? Depois do mais novo retornar para a casa que dividia com a namorada? Não haviam afinal dito um ao outro que estavam juntos pelas crianças? E agora que já não há mais crianças senão aquelas presas sob os retratos envelhecidos da estante? 
Agarrou o pente e quedou-se a domar os cabelos pintados de loiro para disfarçar os brancos que surgiam cada dia um pouco mais. Os anos foram duros para ela, os anos e o mundo. O peso que caía sobre suas costas, a que ela ajeitava como quem arruma a alça de uma mochila pesada, agora cobrava-lhe implacável. As rugas espalhadas pelos cantos dos olhos, ao redor da boca...rastros das lágrimas e dos sorrisos que abandonara. Olhava para ele retirando as sobrancelhas brancas que manchavam a moldura espessa de seus olhos castanhos. Marcos sempre fora vaidoso, antes fazia a barba todos os dias, agora, faz barba, sobrancelhas, nariz e orelhas. A idade tem destas, começa a faltar cabelo onde tinha de ter e sobrar nos mais variados lugares. 
"Onde foi que nos perdemos?" Ele parou como se tivesse escutado o seu pensamento, mas foi apenas o tempo de mudar de mão a pinça e recomeçar o trabalho paciente que roubava-lhe mais de meia hora. Sabia que ele deitara em outras camas, que além de tudo, o emprego deu-lhe desculpas demais para tal. Mas sabia que agora isto não fazia a menor diferença, que já não sentia mais aquele ardor de mulher traída, nem mesmo o despeito por si mesma, visto que o ciúme daqueles centímetros de carne desapareceu tão logo desapareceram os seus orgasmos. E agora sabia mesmo sem querer, que as constantes idas ao celular, os assovios por nada, a benevolência em sua voz, eram indicativos claros  de que andava entre coxas tenras e jovens novamente. 
Houve tempos em que pensou em arrumar um amante também, mas suas tentativas foram tão desastradas ( o suposto "sarado do 69" era um antigo aluno seu) que desde então ela deixou-se de chats de encontros.  Ele tinha-na avisado que hoje não era para esperá-lo para o jantar, ela nada disse enquanto passava o rímel seguido do batom cor de cereja. Quando as horas passaram e o dia se fez noite, desistiu da lasanha que já esfriava no forno, foi até o congelador e pegou o pote de sorvete. Sentou-se a olhar para as luzes da cidade que acordava, pequenas estrelas cintilando  no asfalto. Enchia a colher e esperava o gelo derreter-se na boca, com a felicidade que a vida lhe dera de comer doces e nunca engordar. Não sabia quando o marido ia lhe responder a pergunta ou se ela de fato a faria. Porque já estavam tão acostumados com o passado, mais que acostumados, fascinados com as ruínas que construíram, que nenhum deles tinha vontade de virar-lhes as costas. Deitou-se depois de vestir a camisola de cetim e sentir os bicos dos seios saltados no tecido. Mas só conseguiu finalmente adormecer quando Marcos deitou-se ao seu lado e apagou a luz.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Mundança

Não existe, mas devia. Mundança seria na definição do meu dicionário particular, a abundância de mundo, ou a dança de um mundo dentro de nós, que se sacode em rotação separando as coisas que já foram e criando espaço para que outras possam ser. 
Queria ser uma pessoa daquelas fáceis de levar, uma que aceita tudo, cujo refrão é um eterno Carpe diem...Ao invés disto, me agarro ao desespero como se ele fosse realmente a única saída, dou golpes no ar e mesmo, mesmo quando a "mundança" é para melhor, abraço os joelhos tentando me proteger das minhas falsas expectativas. 
Sinto-me como um aluno repetente a ver as mesmas lições no quadro, a preparar-me ansiosa para a prova, sempre as mesmas perguntas, já com as respostas decoradas em verso, vejo-me a rodar...a cair...pequena... Engulo o medo na tentativa de que assim ele não possa me engolir. Traço dietas, faço planos e espero com a ansiedade de quem quer atropelar a vida. Na verdade, o que eu queria era que as coisas permanecessem quietas e que o chão parasse de girar sob os meus pés.