quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
amiga
Te busco sempre que vejo uma mulher de cabelos grisalhos descendo pelos ombros, esbelta e alta como tu. É como se esbarrasse em ti por aí, nas vielas da vida, meio por acaso. Solto um sorriso tímido de será que eu chego perto e peço um abraço? Como se tu fosse uma diva, sei que tu seria daquelas que humilde não se importaria nada da minha intromissão. É uma ânsia de te ter palpável amiga, pode ver e tocar: e lembrar! Imagino teu sorriso, teu perfume. As tuas roupas, a tua voz doce. Sinto tua presença sutil, mas como criança que sou, preciso apalpar com os meus olhos, tudo. Quem sabe um dia amiga nossa amizade que é deveras diferente, seja simples como um cruzar de olhar onde eu possa amansar toda essa saudade de ti.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
querubins
Essa manhã te vi passar e pensei estar sonhando com os anjos
Pois o teu corpo é poesia para os meus olhos
Teu bumbum é tão lindo que até aos querubins de Miquelangelo faz inveja
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
fios e tubos
Como que a pessoa fica parecendo um manequim em meio a fios e tubos saindo pela boca, onde antes saiam palavram e risos, agora só o som incessante do bip de aparelhos que mantém a vida. E a vida? Parece que já foi, que aquilo que resta é apenas uma coisa, um invólucro sem serventia. E o tempo agora se arrasta, me vem uma agonia, a pessoa morre/não morre, mas a gente sabe que vai morrer. Mas demora. Porque até pra morrer é um parto? Vem um monte de pensamentos, desde os mais piedosos até o "tomara que não morra no final de semana". Tenho pena, rezo. Mexe comigo, ainda que seja um afeto distante, desejo que vá em paz, mas que não demore.
terça-feira, 4 de novembro de 2025
monstro
Quantos cômodos tem a casa, quantas casas dessas tem? Que labirinto se forma na tua cabeça que não conseguimos desbravar, vó?
Que monstro é esse que devora memórias? Que tem fome de um bocadinho a mais de ti todos os dias? E a impaciência de te ver ir embora, se apagango aos poucos? Frustração, raiva de não ser capaz de ver além do monstro da insanidade. *estou ficando louca também? Afinal o monstro devora com seus tentáculos quem se aproximar.
Somos náufragos à deriva, em busca de um raio de lucidez nos teus olhos anuviados. E quando encontramos é como se por segundos o tempo parasse e tudo voltasse como era antes, e eu voltasse a ser amada e te amar muito. Tudo como devia ser para sempre, o nosso final feliz.
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
gol
Não te vi marcar teus gols bonitos, teus dribles com as pernas fortes e ligeiras. Não vi tua cabeleira farta a balançar com o vento, nem teus olhos puxados me seguindo por onde quer que eu fosse. Não cheguei a tempo de te ver na primavera da vida, mas te vi menino em um sorriso, em um olhar. Como as flores que teimam em florir mesmo castigadas pelo tempo frio. Tu estás lá e vez por outra deixas esse rapaz brincar mais uma partida com o meu coração.
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
vó
Andas tropeçando nos móveis e nas lembranças empoeiradas que vez por outra pipocam acima te arrancando sorrisos
Tenho saudades de nós, vó, de quando éramos avó e neta na saída da escola comendo churros, na praia em pleno inverno, teu pão batido perfumando a cozinha. Não tenho muitas lembranças das conversas, mas eu gostava da tua companhia. Era segurança sem as aparreações da maternidade. Agora sinto que essa vó não existe mais, morreu ou está bem escondida atrás dos olhos vazios. Às vezes sinto-me cuidadora e tu minha paciente, às vezes eu mãe e tu minha filha. Ninguém te prepara para cuidar de um filho grande, de trocar fraldas, lidar com birras. Tem gente que diz que o idoso não deve ser tratado como criança, que tem passado, caminhada longa. Eu acho que se há coisas que regridem, é a mente. Principalmente quando ela mente para ti que não estás em casa, que te mudaste. Anda tudo bagunçado aqui dentro. Vai ver é o temos em comum, vó.
Sinto que agora és como a lagarta gorda e desajeitada que se arrasta penosamente em busca do casulo. Quando tudo isso acabar serás linda borboleta, estarás livre das limitações do mundo e quem sabe voltarás a ser a minha amada vó.
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