segunda-feira, 30 de março de 2009

O Ferro-velho cap 9


Doze anos de silêncio

Uma rodela de limão derrotado, que mostrava as felpas de seu bagaço sobre a água do gelo derretido, entretia seu olhar. Passou a unha escrupulosamente pintada de cor-de-café pelo copo suado. Tinha algo de obsceno naquelas gotas do cilindro magro e comprido. A moça com o yorkshire passou mais uma vez, e já contara sete voltas das nove que dera. Distraíra-se com o céu azul, com o dia frio, porém ensolarado, raro de outono. Isaura descruzara as pernas (aquele sapato a estava matando) e desculpara-se ao roçar nas calças do marido. Ele olhou-a intrigado, pegou em sua mão novamente e continuou a fazer piruetas com seus dedos ossudos. Disse-lhe então, com muita delicadeza:
- Há três anos que me traz aqui nesse bar, que insiste em sentar na mesma mesa e cadeira, que olha para a torre e não me diz nada. Simplesmente olha para o céu, para tudo e não me enxerga. Quer falar alguma coisa difícil, eu sinto que quer, mas não diz, e confesso que tenho medo de ouvir, medo de que os lábios que aprendi a amar me refutem com palavras de fel. Porque, Isaura, porque o mesmo dia, o mesmo horário? Porque aqui? – por uns instantes ele mira-lhe os olhos negros, vê-se refletido em seu vazio, sente-se só, duplamente só. – escuta, estou preparado, diga o que quiser, vou entender: prometo. E se você... – Isaura interrompe-lhe com uma das mãos.
- Não é nada disso. Eu te amo, amo, sempre amei. Como você já sabe, é uma coisa muito difícil, é um segredo.
- Confia-o a mim, por favor.
- Não é tão simples...tenho medo.
- Nada feri mais que o seu silêncio. Acredite. – disse com tanta intensidade, carregando no erres (falava em português com ela para que não se sentisse tão deslocada naquele país), que ela cedeu às palavras e ao choro; pegou o caminho de volta àquela tarde quente de setembro.
- Nós tivemos um filho...um filho, Jean!! – ia cuspindo as palavras, em uma logorréia infinda. Falou-lhe de Romulo como nunca o dissera, não o poupara de nada, das surras, dos estupros com a garrafa de cachaça, da miséria em que criou o primeiro filho e finalmente da gravidez e do nascimento da filha, naquele dia. – durante todo esse tempo, nem ao menos sabia se fora indiscreta (Diabos, aquela gente com mania de sussurrar! Depois faziam filmes para escandalizar seus modos frios...), se levantara a voz ao expor sua podridão, mas se assim agira, não se envergonhava, por muito tempo envergonhou-se de suas lembranças. Quando se calou, pode sentir o olhar de Jean sobre ela, não o via, mas podia sentir mágoa, reprovação, perguntas desordenadas prestes a explodir em sua face. Ao invés da enxurrada de emoções, o marido limitou-se a uma pergunta, e talvez a tivesse escolhido a dedo, golpeando-a com os olhos azuis:
- Como pôde? – Isaura fitou-o exausta, tinha o ralo buço suado, as bochechas ruborizadas. Não tinha fôlego para mais nada, estava entregue ao seu julgamento. Com muito esforço murmurou:
- Você disse que ia perdoar...não importava o que fosse, disse que ia perdoar... – levantando-se da cadeira, Jean atirou com raiva as luvas de couro (ele sabia como a enfurecia andar com as mãos geladas, mãos tão magras aquelas!) sobre a mesa. Mas disse baixo:
- Durante todo esse tempo...como pode me esconder? Diz, como posso perdoar...é um filho, Isaura, um filho que você relutou em me dar e, estava lá, além do oceano, longe de mim... – pensou em ir, mas deu meia volta: precisava saber – Quanto tempo? Quantos anos?
- Doze... – sua voz saiu sumida, tinha a impressão de que só saíra a fumaça da respiração. E foi a última coisa que Jean escutou, depois disso virou-lhe as costas e correu em direção à Torre Eiffel como se esta fosse a esfinge que pudesse devorá-lo.
Isaura chorava, olhava ao redor e chorava, tudo a fazia chorar. Olhou para as mãos nuas do marido, ao longe, e chorava.

O Ferro-velho cap 8




Ônibus da meia-noite

Estava friozinho, as nuvens não se distinguiam do céu brumoso, movimentavam-se pesadas, assim como um caramujo arrastando-se no asfalto depois de um dia quente. O ar parecia mais leve, o barulho dos carros menos irritante e as árvores agradeciam aos transeuntes, ofertando suas flores e as que não as possuíam, deixavam cair as folhas mais belas, como se acreditassem que eles fossem os responsáveis por entardecer tão fresco.
Fazia tempo que os dias terrivelmente quentes predominavam naquele estado. Previa-se chuva para outros lugares, frio e às vezes até mesmo neve, mas ali continuava tudo igual: um quadro pintado por um artista insensato. E as pessoas que atravessavam as ruas esburacadas e repletas de remendos, os cachorros vira-latas que enfrentavam o trânsito, o motorista que os xingava e as crianças que jogavam bola no campinho, eram personagens a se movimentar no espaço daquela tela infinita.
Mas parecia que ia chover...que alegria! Os meninos sequer interromperam a brincadeira, as moças se escondiam em suas pastas e as velhas de pernas cambotas, tentavam correr com suas sacolas de feira inutilmente. Alguns paravam seu caminhar e quedavam-se a contemplar o chuvisco tímido molhando as calçadas sujas. Um homem já maduro, ria como criança, na chuva, mostrando os dentes cariados ao sentir a água gelada tocar em sua careca.
Josué observava de dentro da rodoviária, sentado no banco de um bar, tomando café e mordendo um pastel de carne pingando a óleo. Estava calmo, com os olhos absorvendo a paisagem urbana, rindo sozinho das pobres senhoras de cabelos longos e grisalhos. Deu vontade de gritar: “não foge irmã, essa chuva foi Jesus que te mandou! Ele voltará!”.
Havia perguntas que nunca fizera na escola: “de onde vem a chuva, professora?” De repente ficou sério, o machucado ardeu pelo retesar dos lábios: era muito grande para fazer essas perguntas ingênuas. Levantou-se dali e colocou nas costas a bagagem, tocou na cabeça de uma menina que tomava suco, quis machucá-la, mas com expressão seca, deu-lhe os últimos trocados que estavam em seu bolso. Não vira seu sorriso.
Ficou a ler com dificuldade as manchetes na banca de revista enquanto aguardava o ônibus. O relógio pendurado à parede estava parado, e ele tinha vergonha de pedir as horas ao dono da tabacaria. Via com certa agonia o homem consultá-lo a todo momento. Talvez sua esposa o estivesse esperando em casa e os filhos o abraçassem quando abrisse o portão. Josué daria qualquer coisa para saber que horas eram. Tentou se concentrar no ruído da chuva batendo no caletão. Era uma música tranqüilizante, viajou em sua dança ritmada pelo vento. Tinha os olhos cerrados quando alguém o tocou no rosto. Agarrou fino braço, sobressaltado, pensando estar sendo roubado, e olhou perplexo para a menina do bar a sua frente.
- O que você quer?
- Calma! Eu também to esperando o ônibus. – apontou com a cabeça para o box vinte e três.
- Você vai naquele?
- É, você também, né? – ele soltou-a.
- Desculpe, eu me assustei. Não faça mais isso.
- O que você fez aqui? – apontou para seus lábios.
- Nada. Um machucado besta. – rosnou contrariado.
- Quer um chiclé?
- Não.
- Porque me deu dinheiro?
- Achei que precisaria. E você, porque veio até esse banco?
- Tome, achei que precisaria. – disse rindo ao lhe devolver a carteira de identidade, amassada entre os trocados que lhe ofertara.
- É perigoso andar por aqui sozinha. Onde estão seus pais? (tomou com a avidez de um egoísta as notas e a carteira de suas mãos).
- Minha tia vai estar esperando quando eu chegar lá.
- Parece que já são meia noite – Josué bocejou ao ver o ônibus estacionar. . vamos, pega suas coisas.
- Só tenho essa mochila.
- Isso tá me cheirando a criança fugida.
- Não se preocupe, moço. Não sou mais criança, já tenho doze.
- É...com sua idade eu também não era. – disse-lhe colocando suas tralhas no bagageiro e entrando para procurar seu banco. – poltrona dezessete...dezessete...aqui.
- Vou sentar do seu lado, o ônibus da meia-noite nunca enche. Mas vou na janela! – e mais que ligeiro pulou para o seu lugar antes que Josué pudesse dizer qualquer coisa. Colocou a mochila cor-de-rosa sobre as pernas e sorriu-lhe satisfeita. Josué com o rosto amarelado pelas luzes irritantes de leitura, relutante, sentou-se pesadamente, desejando se livrar de sua inquieta companhia. Castigava a cadeira por sua brabeza, apertava-a, espremia-a contra suas costas. Não falou nada. Saíram da cidade, adentraram a BR e ele mudo, testa franzida. Via com o canto dos olhos ela fitá-lo incessante, buscando um momento de distração sua para iniciar a tagarelice. O pior era que não conseguia relaxar sentindo-se observado, se mexia, apertava as pálpebras, procurava esquecê-la. De repente ouviu:
- Meu nome é Virgínia e o seu?
Fingiu dormir. Fingiu que não escutava voz nenhuma, que não estava sobre a estrada, que não existia mais nada além da irmã se agarrando em suas pernas, implorando para que não a abandonasse naquele sítio. Seria melhor para ela que a deixasse. Pedro cuidaria bem dela, era um bom rapaz. Mas como era triste a sina dos homens: não sabem amar sem prender o que amam. E agora lembrava das flores roubadas de jardins alheios: antes que murchassem, eram atiradas em um lixo qualquer. Alina era assim? O que restara de suas pétalas vistosas poderia ser largado, banido de seu pensamento? Ou era a ela mesma que beneficiaria com a ausência de um irresponsável que não sabia diferenciar sexo de amor? Mas ele sabia que era tudo para Alina. E sabia que ela o perdoara e continuara a lhe corresponder as carícias, mesmo consciente de que o que faziam não era certo.
Desembarcou sonambúlico, tudo o que fazia se tornava parte de um sonho, a mala que escorregou do bagageiro para suas mãos, o ruído dos grilos, a mão da menina abanando, acompanhada de uma mulher que mais parecia dona de prostíbulo. Precisava ver a irmã, carregá-la para o destino de um incestuoso incorrigível (isso porque não se pode mudar o curso de um sentimento: são como oceanos que se encontram, as águas frias da razão vencidas pelas águas quentes do desejo).
Caminhou sendo seguido pelos sons da noite, a trilha de chão batido, o mato espesso cobrindo suas bordas, um que outro farfalhar, olhava somente a luz da lua que carregava em suas mãos: a lanterna lá de cima, estava com as pilhas fracas de Deus.

O Ferro-velho cap 7


Alina e o bebê


Amanheceu um dia lindo, a carícia de uma brisa brincava, balançando as copas das árvores, que por sua vez, acordavam os ninhos de joão-de-barro e as lagartas preguiçosas em seu arrastar costumeiro. Como a natureza era maravilhosa! Como suas leis eram belas e perfeitas, não esquecendo nenhum ser vivo em suas mãos ditosas! Alina aprendera que Deus fizera a natureza e que também fizera o homem, seu irmão, para zelar pela sua manutenção. Mas o irmão era relapso, egoísta e acomodado: queria somente o que ela lhe oferecia sem nada dar em troca...
Porque Deus não fizera o homem como a natureza, belo e perfeito? “Porque Deus lhe dera o livre-arbítrio, a oportunidade de livre escolha”, elucidava a vó Pedra, sua vizinha. Tinha mania de falar difícil, uma linguagem de livros, talvez dos livros que ela tirava essas coisas tão curiosas...e Alina seguia com suas perguntas: “e porque o homem sempre escolhe o mal?” “nem todos escolhem o mal, e minha filha, talvez seja porque este lhes pareça o caminho mais fácil, mais agradável às coisas passageiras....mas nem todos se iludem, nem todos”...Retrucava a senhora, plena de convicção. Alina ficava quieta, guardando para si as dúvidas sem respostas satisfeitas e inventando para elas as que lhe parecessem mais aceitáveis. Pensava: “são as pessoas que não conseguem viver em paz, no fundo, ninguém quer ficar em paz...”.Enquanto vó Pedra a afastava do corpo de uma mulher que sucumbira a uma bala perdida. A poucos metros, atravessava um moleque de costelas translúcidas com a sacola de compras que a morta deixara.
O rapaz magricela interrompeu seu divagar:
- Teve uma boa noite?
- Sim...eu estava aqui pensando numa coisa...
- Diga, minha flor.
- É que... – Alina passava uma flor de ipê roxa pelas canelas e pés, uma flor que juntara do chão. – é que você acha que vai doer? – falou com a cabeça baixa, constrangida.
- Doer o que?
- Você sabe, o bebê.
- Eu não sei...não sei, sinceramente... – Pedro tinha em mente a cena de um filme, só lembrava de que tivera que baixar muito o volume, a atriz se esganiçava na tela muda, as pernas incrivelmente abertas: humilhação e dor.
- E depois que ele nascer, você acha que o Josué vai dar atenção só pra ele? – Nesse momento ela virou-se e encarou-o com os olhos cinzentos rasos d’água. O rapaz ficou por alguns minutos assobiando e afagando seus cabelos louros, até perceber que ela chorava de mansinho.
- Não criança. Não, o Josué não vai deixar de gostar de você só por causa dele. – olhou para seu ventre sorrindo e continuou a assobiar. – bem, acho que estou com fome: vou fazer um café para nós três.
Alina levantou-se sacudindo as folhas grudadas em seu vestido e se pôs a caminhar pelo sítio. Pedro a observava da janela do trailler, enquanto passava manteiga no pão. Sentia pena dela...sentia vontade de poder amenizar um pouco seu sofrimento que parecia-lhe adulto demais para aquele corpo. Mas a vida era assim mesmo...Ficou imaginando-a com um neném nos braços e já não tinha tanta certeza sobre o que dissera algum tempo atrás...Talvez Josué perdesse sua consideração de irmão mais velho e responsável por ela (“o crime fazia, como os santos, milagres”), e talvez também nem sequer voltasse.
A mocinha entrou faceira quando ele a chamou.
- Que felicidade toda é essa?
- Eu estava escolhendo o nome pro bebê...que você acha de Carina se for menina e Fabrício se for menino?
- São bonitos... – disse-lhe aliviado pela sua alegria.
- Não, melhor: se for menino, vou chamar ele de Pedro! – seu entusiasmo parecia indicar a descoberta do nome certo para uma boneca nova.
- Você gosta do meu nome?
- Gosto de ti. – mordeu o sanduíche e brilharam-lhe os olhos melífluos. Pedro riu também, sem coragem para refletir sobre o que ela dissera.
À noite em sua cama estreita e desconfortável, matutava sobre o que faria caso o amigo não viesse. Pensou, pensou e acabou por dormir cansado, sem achar solução.
Pedro acordou assustado com os gritos de Alina. Todo suado, levantou-se o mais rápido que pôde para acudi-la, ainda meio sonolento e sem entender o que acontecia...Achegou-se no sofá onde ela dormia, e deu com seus lençóis ensangüentados e Alina chorando desesperada: era triste a cena da menina agarrada em sua boneca, tremendo de dor e medo pelo ser que esperneava em suas entranhas. Ela agarrara-se nele, em sua camiseta de física empapada e seus dedinhos comprimiram os ombros de Pedro, enquanto ela toda se sacudia em soluços de pavor. Ele tinha que pensar depressa, na hora, não lhe ocorreu de pegar uma bacia com água fervente, nem panos, nem nada. Só lembrou-se (como no filme) de deitá-la e abrir-lhe as pernas à força, a medida em que gritava para respirar fundo e empurrar...empurrar...empurrar...
Alina não conseguia. Fraquejava, tinha náuseas e febre...As lágrimas lhe caíam viscosas pelo rosto vermelho e molestado pelos cabelos desgrenhados. Pedro exasperava-se: via já a cabeça da criança que sufocava, presa, sem entrar novamente, nem sair para a vida que se fazia mais distante do que os centímetros que faltavam.
O rapaz pegou a tesoura de jardineiro que encontrara em cima da pia para lavar, ainda suja da terra, e assim mesmo, cortou o cordão umbilical. Não pode descrever o que sentia...o que sentiu ao pegar aquela coisinha minúscula, de mãozinhas delicadas, de crânio mole, mole. Não dera um vagido: os lábios de um natimorto eram o retrato da desistência, eram o cru sentimento da desistência, misturado com uma certa descrença nas leis naturais, tão vã fora sua preparação no corpo materno. E ele o pegou ainda quente do útero, saiu correndo antes que Alina estranhasse a ausência de seus gritos de protesto pela claridade e frio, com o cuidado de quem acreditava na possibilidade de uma ressurreição. Cavou uma cova rasa, evitando olhar para seu sexo. Natimortos não tem sexo: de que adiantaria pensar em nomes, em planos, se a morte os atropelou relembrando ao homem o seu grácil lugar no mundo? Depositou a terra sobre seu corpo, a princípio com medo de feri-lo, tornou-se aos poucos, impaciente com sua pieguice. Mas ao cobrir o rostinho de feições miniaturais, sentiu uma irreprimível vontade de urrar, e o fez com tanta dor e agonia que os cachorros o cheiraram e puseram-se a uivar também como doidos. Pedro acordou do pesadelo com lágrimas nos olhos e o travesseiro úmido, espiou Alina que ressonava e foi à cozinha beber água: tinha a boca seca como se tivesse gritado a noite toda.

O Ferro-velho cap 6


O acordo


- Este quarto não é o mesmo sem o espelho.
- O que houve com o espelho?
- Quebrou, filho, quebrou... – o jovem permanecia em pé olhando para a mão esquerda do homem à sua frente. Ela estava enrolada em uma atadura manchada de sangue enegrecido. Ele agia com cautela: “esse homem é louco...quebrou o espelho, desfigurou o próprio rosto...”
- Chegue mais perto, filho.
- Mas nós já não tínhamos tratado?... – estava com medo daquela voz rouca, mas demonstrá-lo seria o mesmo que assinar sua sentença de morte.
- Mas ainda não falamos de uma coisa...
- Acha que não estou apto para o serviço?
- Certamente que está.
- Não estou entendendo...aonde quer chegar?
- Você é bonito... – ele aproximava seu rosto da luz.
- Eu não...
- Psshhh... – silenciou-o – não reparou uma coisa em meus homens?
- N-não...o que...nãoooooo!!!
- Segurem-no rapazes.
O homem passou a mão machucada com delicadeza em suas bochechas, em seus olhos, em seus lábios. O jovem prendia a respiração a cada vez que saia da ferida o cheiro de sangue seco que tanto detestava, e fechava os olhos com receio de abri-los novamente. Ele aproximou-se o máximo possível e sussurrou-lhe:
- É que todos tem os lábios cortados! – disse isso e desferiu um violento e certeiro golpe. Depois ergueu a lâmina espelhada e tingida de sangue, revelando-a aos que assistiam à cena. – isso é para recordarmos de que o silêncio é sempre a melhor opção. Lembre-se de que somos uma família. Você é um dos nossos agora. Vai, pode ir.
Os capangas o soltaram de volta no chão. Ele saiu correndo, sem olhar para trás, apavorado com o sangue que escorria de maneira vertiginosa. Corria com dois dedos no corte e os outros na boca para estancar sua ânsia de vomitar. Pensou em ir para o hospital, mas era muito arriscado, decidiu por subir o morro, no terreiro de seu Afonso, ele cuidaria daquilo, pois suas ervas nunca decepcionaram.
Estava uma noite fresca e estrelada. A lua escondia-se por entre as nuvens que mais pareciam vestígios de fogos de artifício de tão tênue que era seu circular vaporoso pelo céu de ébano.
Eram oito e meia e podia-se ver o movimento de ir e vir dos moradores ou para o culto evangélico, ou para a umbanda e candomblé ou mesmo para o “Deus me acuda” de mais uma noite no desvio do crime.
Ele adentrou no terreiro calado. Não sem antes encarar a santa de rosto pintado de rubro, parada à porta, que tanto o assustara na infância. Assim ficou durante quase toda a cerimônia, os olhos baixos com nojo daquela gente que girava como lençóis de pontas sujas pela lama: assim eram os pés negros dançando ensandecidos ao ritmo de tambores. Josué tinha ainda os olhos baixos quando seu Afonso sentou-se ao seu lado. Ao ouvir que o banco de madeira descascado e repintado rangera, o rapaz buscou incansavelmente os olhos do velho. Tremia e suava de febre; sentia frio e medo, muito medo. No fundo desconfiava que nem mesmo ele pudesse ajudá-lo. Desejava que sua voz grave como devia ser a voz de sua consciência muda o estremecesse como aconteceu naquele instante:
- Que tu tá fazendo aqui fio?
- Eu estou precisando de ajuda...
- Ôcês só vem quando percisa... – falou sacudindo a cabeça branca como a entender a desobediência dos jovens. – mas duma coisa vô ti avisá, fio: si veio aqui pra pidi remédio pro corpo o pai José tem, mas pra alma...essa só a cossciência limpa podi curá...
- Eu estou com muito medo...
- Nóis não podi interfiri em nada. O fio já escoieiu o camino dele e não podi mais vortá atrais.
- Me ajuda pai José... – falou baixo prestes a chorar.
- Toma, isso aqui vai resorvê – falou ignorando seu arrependimento. O velho puxou alguns ramos de folha da camisa surrada e deu-lhe – é pra passá antes de deitá.
- Não vou conseguir dormir...
- Fio – o preto mirou-o nos olhos firmemente com suas órbitas amareladas e repletas de vazinhos ( Josué daria tudo para se perder naquelas ruelas e esquecer o que o trouxera até ali); depois tocou a ferida, analisando-a e, parecendo ver o que ninguém percebia, fez com que parasse de sangrar. – isso aqui os home do cosa ruim botaram em ti. Isso qui não se apaga...só cá morte. Ôcê tem medo di morrê, fio?
- Eu não sei...
- Pensa na minina. Tira ela do caminho do cosa ruim. Tu deve de sabê porque tô ti dizendo, tu não é burro, causa di que tu imbarrigô ela i ninguém disconfiô.
- Ela tá bem?
- Nóis tá mió cá nossa sombra que se tivesse com quem nóis ama.
Pai José retirou-se para atender as pessoas que o aguardavam e deixou-o largado as próprias dúvidas, como um menino analisando a profundidade de um lago turvo. Nada mais disse a Josué, que sem forças, observou sua corcunda desaparecer na multidão branca sacudindo-se no terreiro de chão batido. Foi embora triste, a cabeça cheia de sons acusatórios. Sentiu que a santa o encarava pelas costas, em sua casinha vermelha, envolta em velas e flores. Tinha medo e raiva daquele sorriso. Sorriso cínico. Mas era só uma imagem...e imagens nada podem fazer. Pior eram os seus “filhos” que andavam por aí. E era talvez disso que ela ria...

O Ferro-velho cap 5


Acerto de contas


Ele chegou no balcão do bar e pediu o trago mais forte que tivessem. Precisava tomar coragem, ir em frente sem fraquejar: a cachaça é o remédio dos fracos...Mas ele não se achava um. Remangou o punho sujo, cuspiu o resquício da bebida e aproximou-se do homem que estava na outra extremidade. Havia cheiro de sangue no ar, todos sentiam. Aprenderam com a experiência e as cicatrizes...e quem não as tinha? Devagar, foram se afastando, abrindo espaço para a confusão que tomara conta daquela espelunca.
Seus passos eram amortecidos pelo rádio mal sintonizado. Ele seguiu lentamente, como uma leoa certa de seu triunfo sobre a caça. Armou o canivete e degolou-o. Seu pai caiu sem soltar o menor gemido. Parecia que já o esperava, parecia saber que aquela discussão à noite passada não iria ficar por isso mesmo. Sua imobilidade era mais perturbadora do que se tivesse tentado reagir. Mas quem era ele para o impedir de entrar em casa, para dizer o que bem entendesse? Um bêbado...um aleijado...Seu corpo estendido abrandou a raiva do filho, que saiu sob os olhares dos fofoqueiros. Emudecidos, estes, se convenceram do assassinato “justo”, fora por honra, sabiam que aquele traste não valia nem os chinelos que calçava...
Tomou o caminho de casa antevendo o que pegaria para levantar uma “grana”. Vida nova eram as palavras que surgiam em seu pensamento como luzes em néon, promessas de uma vida de prazeres, mas que sabia, no fundo, não ser muito diferente dessa.
Ao chegar perto do casebre, bateu de frente com Marcinha que lhe olhou curiosa com uma pergunta no rosto maquiado. “Andava na zumba, moleque?”. mas não disse nada. O travesti passou discreto, com a cabeça baixa, deixando um rastro de glitter colorir a poeira habitual. “Zumba”, é claro que eles achavam que estava na “zumba”, uma espécie de exilo quase voluntário se é que dá para entender...Está zumbado quando se dá um furo, quando se volta atrás no que fora prometido, e principalmente quando quem se prejudica pela besteira é alguém respeitado pelo morro. Mas graças a Deus ele não estava zumbado: seus motivos se estendiam além do que almas curiosas poderiam especular.
Esperou que Marcinha se afastasse para derrubar a porta de casa, pois o pai tirou-lhe a chave na última briga que tiveram. Um ruído opaco se seguiu. Não foi preciso muito esforço: estava ficando cada dia mais forte e os cupins juntamente o ajudaram. Era uma pena encontrar a casa naquele estado, suja, abandonada...Quando sua mãe ainda morava com eles isso nunca aconteceu. De repente sentiu saudades dela e imaginou aonde ela poderia estar...Recordou-se do bolo de cenoura que ela fazia tão bem...mas não conseguia sentir mais seu cheiro como na infância, ele apagava-se aos poucos de sua memória.
Enquanto fazia as trouxas com o que conseguira arrecadar, via Alina correndo por entre suas pernas, rindo, arrastando sua boneca de pano. Ele pegou-a em pensamento e saiu por aquela porta carregando-a na garupa, em direção à mesa de fla-flu que seus amigos freqüentavam, como tantas vezes fizera. Lembrou-se ainda das fraldas que trocou com nojo e do choro que o acordava toda santa madrugada. Às vezes passava a noite sentado na cama, com a vela acesa sobre o criado-mudo, afagando sua cabecinha, acalmando os gritos de indignação pelo abandono materno. Tinha gana de contar para a mãe que ele não tinha obrigação de fazer aquilo, e que apesar de gostar dela, desejou ardentemente que Isaura a tivesse levado.
Ele foi pai aos nove anos. E isso o marcou de maneira profunda: não tinha tempo para brincar nem estudar, largara a escola ainda com a terceira série incompleta, e foi para as ruas, pois elas davam mais lucro do que um emprego decente. A irmã, muitas vezes um peso em sua vida, foi o que amenizara sua falta de sorte. Sentia-se recompensado, quando após tanto esforço para mantê-la alimentada e vestida na medida do necessário, recebia um terno sorriso de agradecimento e, mesmo dizendo-lhe que era seu “irmãozinho grande”, a menina não pode evitar nos primeiros anos, em chamá-lo de pai.
Colocou as duas trouxas nos ombros e deixou a casa. O olhar de reprovação e deboche do pai iria ficar para trás, como a porta derrotada da maloca. Todos pensariam que Romulo fora o responsável pela gravidez de Alina e dariam razão pelo crime cometido e, não somente isso, como também o esqueceriam em meio a tantas tragédias que preenchem seus dias. Na realidade, não tinha necessidade de matá-lo, o próprio tempo se encarregaria disso, contudo, ser comparado a ele era inaceitável, e jurara que assim o faria quando retornasse.
A terra seca grudava-se nas vestes, nas sandálias, na cabeça... Talvez por isso aquela gente fosse tão violenta e tão seca. A terra impedia de pensar, a terra sufocava, irritava tanto que quando alguém tinha dor de cabeça, se dizia que estava com terra (minúsculas pedrinhas) roçando no cérebro...E só quem a tinha entranhada nas narinas todos os dias, sabia da conseqüência funesta. E quando chovia ao invés de melhorar, piorava: o barro se colava nas pernas e tornava o caminhar mais odioso e pesado. Uma velha com os lábios escondidos nas gengivas, resmungou da sua janela ao vê-lo praguejar: “não embrabece meu filho, um dia, é essa terra que te carregará”...

O Ferro-velho cap 4


O Sorriso do Palhaço



Quando voltaram do parque chovia como nunca. Chegou até a esfriar. Alina virou-se para o irmão preocupada, pois não estavam fazendo o caminho de volta, viajavam ao contrário, para bem longe de casa.
- Para onde estamos indo? – perguntou-lhe tímida.
- Vamos para o circo. – respondeu seco – não era isso o que queria?
O ônibus não podia chacoalhar mais. Passavam por estradelas sinuosas de chão batido, curvas aonde o carro que viesse em sentido oposto tinha de encorcovar por cima das calçadas para dar lugar ao outro. Desceram no fim da linha e caminharam um tanto mato à dentro onde no fundo de um sítio se localizavam alguns trailers. Ela tentava em vão proteger-se com a camiseta, que também se encontrava encharcada. Ele parou no portão, bateu palmas e abriu-o. Dois cachorros vieram dos fundos, latindo alegremente. Alina pulou no colo dele, que avisou-lhe que tudo o que queriam era cheirá-la. Junto com os cães viera o dono, um jovem magricela.
- E aí cara?! Quem é a vítima? – mirou-a com seus olhinhos crispando de satisfação e curiosidade.
- Minha irmã. – retesou a testa – quero que fique com ela, eu preciso arrumar umas coisas antes de fazer aquele negócio.
- O Vilson já te deu o sinal?
- Não, não é por isso, são outras coisas...assunto meu.
- Tudo bem. Claro que posso ficar com a belezinha...
Ele virou-se para Alina:
- Escute aqui: quero que se comporte e obedeça ao tio, tá? O mano precisa sair, mas eu volto...
- Você mentiu para mim...disse que ia me levar no circo... – falou chorosa – eu não quero ficar... – agarrou-se na bermuda do irmão.
- Alina por favor, você está bem crescidinha, tá fazendo até coisa de mulher...você vai ficar aqui e pronto. – virou-se para o amigo que os observava impaciente, protegendo-se com a aba do boné – Cuida dela.
Ele mirou-o longamente antes de ir. Fechou o portão deixando os cachorros e os choramingos de Alina. Ela talvez estivesse segura, mas por ora, não lhe ocorria lugar melhor para escondê-la.
- Pode deixar. – gritou o magricela quando ia já bem longe. E vendo Alina com o olhar parado na estrada por onde o irmão desaparecera há alguns minutos, pegou em sua mão e levou-a para dentro.
- Como é seu nome? – ela permanecia ausente – você fala?
- Alina. – respondeu depois de muito tempo.
- Que nome bonito! O meu é Pedro, pode me chamar de tio se quiser. – ela o fitava com olhos assustados, a boca apertada por entre dentes. – o seu irmão não mentiu quando disse que ia te trazer no circo. Isso aqui já foi um grande circo, mas agora é o que você vê...um monte de lata velha...só sobrou o palhaço, eu.
O magricela deixou escapar um pouco da tristeza que sentia cada vez que remexia no passado, contudo rapidamente se corrigiu, firmando a voz com falsa disposição: “um palhaço será sempre palhaço, ainda que o riso lhe falte”. Arreganhou o sorriso amarelado ao perceber que ela esboçava uma pergunta:
- Você era um palhaço? – pela primeira vez o encarou, Pedro viu que seus dentes não eram tão afiados quanto pensava.
- Sim, e fazia malabarismo também; e ainda engolia fogo!... – a empolgação da menina o contagiou até recobrar o bom senso, então a alegria foi se apagando à medida que murmurava – mas isso foi há muito tempo...
- Nossa! – um ingênuo sorriso lhe escapou dos lábios: quem resistiria aquele sorriso? Perguntou-se o rapaz enquanto reparava nas feições de criança no corpo da mocinha com quem falava.
- Eu acho que ainda sei fazer alguma coisa, quer ver?
- É claro que quero!
- Vamos então. As roupas estão no outro trailer, assim aproveita para se trocar também. Vem –ele segurou sua mão – antes que chova mais forte.
Na escuridão da “lata velha” como ele acostumou-se a chamá-la, Pedro apresentava-se para sua única espectadora. Esquecendo-se disso, imaginava a multidão que o cercara outrora na época dourada de sua vida artística. Com a morte do pai tudo mudou: o circo faliu, venderam os animais e cada um foi para seu lado. A esperança dispersara-se, e os trailers funcionavam como pequenas máquinas do tempo, cheias de fotos, fantasias, lembranças daquele gigante adormecido.
Pedro convidou-a para sentar. A cozinha não era grande, havia apenas um fogareiro, uma geladeirinha e uma mesa dobrável. O armário quase sempre vazio, que a todo o momento ele esquecia-se de abaixar a cabeça, batendo nele, sufocando um palavrão; tudo dava àquele lugar uma atmosfera de aconchego, da tranqüilidade que não tinha no morro, onde vivia.
- Eu não sei cozinhar direito, me desculpe. Já estou acostumado com a minha comida.
- Não se preocupe. Eu estou com fome.
Houve um silêncio cortado apenas pelo zumbido de uma varejeira. Os dois a observavam com os olhos.
- Quem foi que lhe fez mal, minha pequena?
Alina não respondeu, parou de comer e continuou a alisar pensativa a barriga que crescia.

Dedos


Que meus dedos
Desenhem a felicidade singela de um coração
No vidro de qualquer ônibus, carro ou banheiro,
Enquanto espero a hora de passar mais essa hora.

Que meus dedos
me acariciem quando a solidão for bastante
Para fazer-me pensar
Em desistir do corpo.
Que me protejam
Quais fossem as cordas de um barco ancorado
Temendo o mar bravio da vida.

Que gelados e magros,
tenham paciência quando chorar,
Sequem meus olhos insones
Pela abstinência de ti
Risquem palavras apenas para
Não esquecer-me das coisas do mundo, eu que
Estou tanto tempo nesse lugar algum.

Que meus dedos entendam meu prazer,
Que me amem apesar de tudo,
E que, enquanto não chegas, se façam teus
Os meus dedos...