domingo, 31 de agosto de 2025

19 anos

Sou assim, faço voltas, quero explicar o que sinto e pra ti não faz a menor diferença. O amor é um despretensioso abraço, um beijo singelo no meio da testa depois de um dia esbaforido. É fazer panquecas doces numa tarde chuvosa, é escutar as minhas músicas junto comigo que eu sei que tu não gosta. O nosso amor é peculiar, já nasceu com trinta anos de diferença, uma coisa só nossa, que só a gente consegue entender. E eu tento estender as palavras num varal uma do ladinho da outra esperando que faça sentido aí fora como faz tu aqui dentro. Mas não dá. Elas voam como pardais.
Teu amor me traz de volta seguindo o som da tua voz , teu amor é assim faceiro e ingênuo, como o vôo de um passarinho.

domingo, 3 de agosto de 2025

Para ele

Tu é a minha casa
lugar pra onde sempre quero voltar
Quando os dias são longos e o mundo, mesquinho,
é para ti que me viro em desalinho
porque sei que dos teus braços nasce um ninho
E sou pequena, a tua nyninha...
Criança tola a bailar pela vida
ralando os joelhos pelo caminho
Eu sei que tu está sempre perto de mim
Minha casa, meu lar nesse mundo

Domingo

Será que eu cheguei tarde demais?
Naquele lugar recortado no tempo
Tu sorrias: como era bonito teu sorriso, bem emoldurado por fartas bochechas!
Vinny, meu companheiro de brincadeiras,
Agora não sorris mais...
Alguém costurou e prendeu o teu riso
E eu fiquei pensando em todo esse hiato que vivemos até chegarmos aqui 
Trinta anos depois quem eras tu, meu amigo?
Que tipo de homem de tornaste, que sonhos te roubavam os pensamentos? Odiavas os mesmos políticos que eu? E mais, lembrarias ainda mim? Aquela menina de franja e dentes tortos?
Sei que ainda posso te encontrar em alguma esquina da vida portando aquele inconfundível sorriso.
Até logo, Vinny!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

teus 70

É verdade que os teus olhos já não enxergam mais como antes
Deve ser para não veres que minhas curvas antes sinuosas, se encontram domadas e previsíveis quando enches as tuas mãos delas
É também verdade que as tuas pernas já não me acompanham mais, pelo menos não sem chiar. mas foram bonitos os caminhos por onde andamos de mãos dadas, um filho , uma coelha, um gato e dois cachorros. Vida. Pulsa vida pela tua voz rouca cada vez que me chama Nyninha. E é doce até quando a contrariedade transpassa meu nome. Te amo com sede, de toda a vida que ainda existe em ti, tal como a figueira frondosa, és tu, abundante na minha vida. Parabéns meu amor.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Carcassonne

Bipolar life

Esquecer os remédios, brigar com eles porque não fazem o efeito necessário, brigar com a voz, digo com o Jacques. Engordar... emagrecer...engordar de novo por conta da ansiedade. Entrar em grupos de bipolares e achar tudo muito chato e depois útil porque em algum momento alguém já passou por isso e vai te entender. Descobrir que irrita a incompreensão dos outros, a ignorância talvez... Mas ao mesmo tempo encontrar dentro de si uma força em que mesmo muito mal é possível ajudar alguém em pior estado. E uma compaixão que eu nunca imaginei sequer sentir pelas pessoas portadoras de deficiências mentais.
Descobrir que ainda estou muito frágil e que quando alguém se desespera ao meu lado e grita, eu tremo toda feito vara verde de nervoso. Nisto foi bom ter voltado pra casa. Mas eu ainda não me sinto em casa, dentro de mim. É como se eu fosse uma visita dentro do meu corpo sem jeito nenhum para exercer controle sobre ele. 
Bipolar, este diagnóstico ainda matuta nos meus pensamentos. É para a vida toda, esses remédios que o psiquiatra ainda não encontrou a fórmula certa para me fazer "normal".

terça-feira, 22 de junho de 2021

Eles


Olhou para os pixels que formavam de muito muito perto o par de olhos azuis que a encaravam. Por mais que aumentasse o zoom no telefone daquela fotografia guardada, escondida, não era capaz de decifrá-los. Continuavam a encará-la desta vez de longe, contornos definidos em incerteza. Desceu para a boca emoldurada por uma barba castanho-dourada e macia (ainda podia lembrar do toque gentil e das cócegas quando roçou de leve os seus lábios). A boca cerrada com as palavras que ela inutilmente tentou lhe arrancar, os cabelos que começavam a subir formando tímidos caracóis que ele não iria permitir por muito tempo. Lembrou dos dedos grossos quando estes se fecharam em sua cintura com força, dos braços que a ergueram um metro do chão quando enfim suas pernas o abraçaram. Os beijos úmidos descendo pelo pescoço, seus gemidos sufocados pelo medo de ser descoberta. Lá embaixo eles dançavam, encaixavam o que não conseguiam com o resto; lá embaixo ele falava e ela o engolia, angústia e tudo... prazer, culpa e dor de uma vez só. 

Durava pouco os segundos em que suas respirações sincronizavam, em que esqueciam do quanto eram diferentes e do mundo que o
s separava. A idade, o casamento dela, o medo disfarçado em insolência dele. Contraiam-se como se seus corações estivessem entre suas pernas e ela tinha a sensação de que batiam um para o outro para que não morressem, movimento involuntário que ia perdendo as forças à medida em que os dedos dele a abandonavam e na forma relutante em que ela se desfazia do seu esperma no banho. Ela já sabe que iriam resistir e mentir para si mesmos que não aconteceria de novo, por semanas talvez, até ficarem tão exaustos que a única coisa que lhes restava era se entrelaçarem como animais no cio na cama dela outra vez. 

Seu nome era um mantra dentro de sua cabeça. Ela ouvia repetidas vezes: Jacques, Jacques, Jacques… em seus sonhos ele não tinha uma face. Era qualquer coisa de embaçado, misturado com o cheiro de amaciante de sua roupa. Não havia jamais sentido seu cheiro de homem, apenas o odor de flores em torno de seu dorso forte. Ela se perguntava como podia lembrar de tantos detalhes quando sonhava mas jamais de sua face, de seus beijos ou de sua voz tímida. Ele se lembrava de seu nome? Ele a teria em seus contatos de telefone ou apenas seria mais uma em sua lista de amigos no snapchat? Mordeu o lábio seco de resquícios de batom vermelho. Era hora de levantar. Abriu os olhos devagar. Esfregou-os certa de que os borrava de rímel. Não havia se desmaquiado antes de dormir. O marido ressonava ao lado. Barriga para cima, subindo e descendo como uma gangorra. Olhou sua silhueta no escuro. Ele não tinha culpa de nada, tampouco ela. Se o amor acabava um dia, era porque os dois se abandonaram dessincronizados em plena tempestade. Mas devia sentir culpa, Paulo sempre fora amoroso, gentil até ao ponto de mimá-la como uma criança. Vai ver foi esse seu erro. Cuidar demais. Amar depois. Paulo não podia ter filhos, nem sequer era o seu sonho, mas esteve ao seu lado quando ao ouvir a notícia se sentira menos homem. Tentaram por anos, três, quatro, até resolverem procurar ajuda. Ela desistiu mal, demorou a engolir que seriam apenas dois. Não que pensasse que ser mãe a completaria de alguma forma, mas era a sensação de haver qualquer que faltava que a angustiava. Aos poucos cessaram as perguntas sobre filhos e ela deixou de ir à sessão infantil para olhar as roupas minúsculas de recém nascido. Paulo engoliu em seco os vários meses em que ela lhe foi bruta nas respostas e nos gestos. Pensou em separar e não lhe passava qualquer ideia de adoção pela mente. 

Continua...